Não feche as portas ao sair da empresa

Poucos momentos na vida de um funcionário são tão difíceis quanto o desligamento de uma empresa, seja quando se está pedindo a saída ou sendo demitido da companhia. É inegável, porém, frente aos tempos modernos, que a situação exige muito equilíbrio e jogo de cintura para não matar as chances de manter um bom relacionamento com os ex-chefes e ex-colegas de trabalho.

Embora, muitas vezes, seja difícil perceber a importância de manter um relacionamento cordial no trabalho, quando menos se espera ele pode mostrar sua validade. Quem, por acaso, não trabalhou com um novo companheiro que, coincidentemente, mantinha contato estreito com seus ex-patrões ou ex-colegas de firma? Ou, ainda, quem jamais conquistou um emprego graças ao fator “QI”, popularmente conhecido como “quem indica”? Para especialistas, estes casos são cada vez mais comuns. Daí a importância de se manter uma rede de relacionamentos saudável.

Eu me demito!

É claro que o desgaste do dia-a-dia inviabiliza, em alguns casos, o convívio amigável com os companheiros de labuta. A falta do espírito de equipe, por exemplo, é o principal inimigo das boas relações no trabalho e um dos catalisadores para que os funcionários busquem novas oportunidades. Se você se encaixa nesta situação, no entanto, pondere bem o que dizer ao chefe quando for deixar a empresa. Suas palavras certamente serão determinantes para o sucesso ou o fracasso em manter as portas da empresa abertas para uma possível volta.

Existem coisas que jamais se deve dizer ao chefe, ou mesmo aos colegas de trabalho. Uma delas é: “estou indo embora porque aqui ninguém nunca valorizou meu trabalho”. Ou, pior: “certamente em qualquer outra companhia serei mais bem reconhecido”.”Estas palavras podem ser verdadeiros tiros no pé”, revela a consultora da Gelre Gerusa Mengarda. Primeiro, porque se faz uma crítica destrutiva da atual empresa onde, teoricamente, se beneficiou durante certo tempo e, ainda, um pré-julgamento do novo lugar onde se irá trabalhar. Isto sem saber se ele será ou não uma armadilha.

Para a professora do Departamento de Psicologia da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) Ana Maria Pereira, fazer críticas destrutivas é sempre a pior saída para aquele que está tentando justificar sua demissão. “Seu texto pode ser interpretado como falta de ética e profissionalismo”, revela. Além disso, partindo do princípio de que as empresas são feitas por seres-humanos e nenhum deles é perfeito, dificilmente se encontrará uma companhia que suprirá todas as suas necessidades. “Aquele que ignora estas questões acaba sendo ingênuo ao proferir este discurso”, diz Gerusa.

Outro revés na hora de comunicar sua demissão é deixar no ar que está indo embora apenas por uma questão salarial e, por fim, tentar pleitear um aumento. “Fazer leilão de salário condicionando a este fator sua permanência na empresa repercute de forma muito negativa porque põe em xeque a ética do profissional”, afirma a consultora. Para a psicóloga, a melhor maneira de se despedir do atual emprego e deixar as portas abertas é puxar a decisão única e exclusivamente para si. “Justificar com uma mudança de planos ou a busca por novos desafios podem ser boas soluções. Jamais se deve culpar a empresa pela sua insatisfação, por mais que ela seja a responsável. Faz parte do jogo manter a política da boa vizinhança”, diz.

Conta pontos a favor colocar-se à disposição da equipe para repassar aos outros sua rotina e seus projetos. Além disso, mostrar ao seu chefe que está disponível para permanecer no cargo até que se arrume um substituto para sua vaga também é válido. Esta postura reflete sua preocupação e responsabilidade com o trabalho. Contudo, caso seu chefe aceite a sugestão e lhe dê carta branca para treinar o substituto, evite contaminá-lo com pensamentos negativos e opiniões pessoais, além de antiético, seus comentários podem cair em ouvidos errados e prejudicá-lo no futuro.

Fui demitido, e agora?

Sem pânico! Respire fundo, controle suas emoções e tente se concentrar antes de partir para qualquer ato irracional e descompensado, seja-o chorar na frente de seu chefe, pedir clemência, ou ainda começar uma sessão quebra-quebra dentro da empresa. “Muitas vezes a demissão pode ser reflexo de um corte de gastos e não estar necessariamente ligada ao desempenho do profissional”, lembra a consultora Gerusa Mengarda. No entanto, uma atitude desmedida pode colocar tudo a perder.

Para a psicóloga, a melhor saída neste momento é tentar entender, solicitando uma explicação de seu chefe, o porquê de sua demissão. Mas lembre-se: esqueça o tom de cobrança. “O melhor é dizer que gostaria de um feedback para fazer uma autocrítica, refletir e tentar melhorar, caso a demissão seja resultado de sua atuação como profissional”, explica. Mesmo que em tese sua demissão possa ser fruto deste fator, certamente uma atitude equilibrada na hora de aceitar o desligamento pode contar pontos a seu favor. “Mesmo que não seja para voltar a trabalhar na empresa, uma atitude ponderada pode ser um impulso para futuras indicações em outras companhias”, diz Gerusa.

Se você tem temperamento explosivo e já andava querendo alçar outros vôos quando recebeu a notícia da demissão, a ordem é: controle-se! Caso contrário, essa é uma combinação fatal para fazer com que os planos de manter as portas abertas escoem por água abaixo. “Nada de se sentir injustiçado ou, pior, agir com imprudência e arrogância, menosprezando a companhia para a qual prestou seus serviços”, ressalta Gerusa. Esta é, definitivamente, a destruição das portas que poderiam permanecer abertas para você. “Este é o famoso comportamento Kamikasi”, completa Ana Maria. Segundo ela, o que muitos esquecem é que o mercado de trabalho é pequeno e dá muitas voltas. “Ninguém sabe quem poderá ser o seu chefe ou colega de trabalho amanhã”, encerra a psicóloga.

Para a consultora e gerente de RH do UNIFIEO (Centro Universitário FIEO), Maria Bernadete Pupo, também autora do artigo “A gestão de si próprio” a autocrítica é a palavra-chave para o profissional que está sofrendo uma demissão. Embora o mais comum nessas horas seja transferir a responsabilidade da derrota à empresa, muitos profissionais não se dão conta das mudanças a sua volta. Aí vale refletir qual é o perfil da empresa, o que ela espera do profissional e o que ele próprio espera da empresa. “A responsabilidade de autogestão não é tarefa simples, ao contrário, ela depende única e exclusivamente de cada um de nós”, diz.

autora: Lilian Burgardt
fonte: Universia

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