Hora de meter a colher na “briga” entre design e propaganda





Os profissionais da área de design estão a fim de trabalhar, mais do que nunca, para aproveitar os bons ventos que vêm soprando, no Brasil, sobre as classes empresariais e políticas, cada vez mais conscientes da importância da atividade para o fomento do crescimento da economia, tanto internamente como na soma de divisas através das exportações. Os consumidores também colaboram, é claro, com esse clima alvissareiro que envolve o setor, pois, não é de hoje que muitos produtos e serviços têm conquistado a preferência de seus públicos-alvos não apenas através dos avanços tecnológicos e do bom atendimento nas vendas, mas também em razão do sucesso dos programas de branding implantados por áreas de marketing com suporte dos talentos que se dedicam à construção e ao fortalecimento da imagem das marcas, o que envolve, na atualidade, além da publicidade tradicional e de ações promocionais, experiências mais ricas com a marca em todas as fases de contato com o target. Sobram motivos, portanto, para que, mesmo após uma agenda intensa de trabalho durante o dia, renomados profissionais do setor de design mantenham a disposição para, no período da noite, realizar e participar dos workshops que compõem a programação da primeira Brazil Design Week, no Rio de Janeiro.

Organizado pela Abedesign, sob coordenação geral de seu vice-presidente, Luciano Deos, diretor-presidente do GAD Branding & Design, juntamente com a Apex Brasil, o evento abriu as sessões de palestras e debates noturnos na terça-feira, 9 de setembro, com mini-apresentações (cerca de 20 minutos cada) de quatro feras: o próprio Deos, Ronald Kapaz (OZ Design), Lincoln Seragini (Seragini, Farné, Guardado) e Ana Couto (Ana Couto Branding & Design).

Todos muitíssimo aplaudidos pela platéia que lotou a Cinemateca do MAM, no bairro do Flamengo, os palestrantes prestaram enorme contribuição ao setor ao deixarem de lado, por algumas horas, os ânimos de empresas concorrentes para abraçar o tema debatido como uma causa em prol da evolução do design no Brasil e, conseqüentemente, do aumento da competitividade dos produtos e serviços disponíveis no mercado nacional para usufruto interno ou externo, via exportações, caminho saudável, aliás, para que a Nação também se fortaleça diante de players que já posam de estrela no cenário internacional desta primeira década do século XXI, como a China, cujas atrações vão bem além dos fantásticos espaços que preparou para abrigar as Olimpíadas de Pequim.

Cada qual a seu modo, os palestrantes atestaram que estavam absolutamente corretas quase todas as premonições feitas pelos melhores gurus do ramo acerca da eficácia do design entendido como branding neste novo século por não se preocupar mais apenas com a forma, como ocorria em épocas remotas, mas também – e fundamentalmente – com a personalidade e o caráter das marcas, produtos e serviços, visto que sobre eles recai, nos dias de hoje, um olhar extremamente crítico e pouco benevolente quando à espreita estão prospects e até os clientes já conquistados.

Unanimidade não houve entre os palestrantes – ah! como é bom quando essa tal unanimidade dá um tempo para que as divergências incitem novas reflexões, uma das bases impulsionadoras de mudanças e da prosperidade. Obviamente, os quatro profissionais compartilham idéias e acreditam no potencial do trabalho de suas equipes, essencialmente quando pensam no design como ferramenta estratégica para gerar bons negócios e relacionamentos. Mas, em decorrência do próprio histórico de cada um dos profissionais convidados, bem como do perfil dos times que estão sob sua gestão e dos clientes por eles atendidos, há pontos de discordância sobre, por exemplo, o modo, os meios e o poder que têm as marcas, no presente, para inspirar ou “influenciar” o comportamento das pessoas. Uma discussão deliciosa, regada por conceitos filosóficos que comprovam a circundução multidisciplinar do design, cujos expoentes humanos flutuam do universo artístico, com todos os seus graus de subjetividade, ao domínio da praticidade inexorável que condensa o mundo atual.

“Design é a alma do negócio”, pontua Lincoln Seragini, com uma acotovelada na propaganda tradicional, cuja missão, sob visão das áreas de marketing e demanda do público, tem agora novos parceiros do começo ao fim de um planejamento – entre eles, o design.

Deos, no GAD, antes de se entregar a um processo de branding, proclama 10 mandamentos; e com eles em mãos estimula as meditações e ponderações dos clientes, confessando ser “apaixonado por marca”:

1 – Pensar em pessoas, não apenas em consumidores.
2 – Vender experiências, e não só produtos.
3 – Buscar a confiança dos clientes, e não se contentar apenas em fazer o certo.
4 – Almejar a preferência das pessoas, e não apenas a qualidade.
5 – Ser alvo de aspirações.
6 – Estabelecer personalidade clara, não apenas estilo de comunicação.
7 – Preocupar-se em agregar emoções e, assim, alcançar presença emocional.
9 – Propor diálogos, não falas unilaterais.
10 – Ter a aspiração de criar relacionamento, não só de oferecer serviços.

Com a mesma paixão pelo que faz, Ronald Kapaz encantou seus ouvintes, pois, o encadeamento das idéias que apresentou, além de expressar conteúdo rico e deglutido durante anos de experiências (ele parece ter nascido designer), revestiu-se da mesma estética ideal que se espera de um processo de branding, unindo exemplarmente personalidade, caráter, beleza e relevância. Eis algumas de suas saborosas premissas: “Design é filosofar com a forma”, “Design é um processo”, “Um processo de design deve ser belo”, “Belo é aflorar o valor verdadeiro”, “Design é dar corpo à alma”, “Design nasce de um belo encontro”, enfim, “Design é música para os olhos”.

Pragmática, como 9 entre 10 mulheres bem-sucedidas profissionalmente, Ana Couto finalizou o primeiro workshop da Brazil Design Week, esbanjando sofisticação no vestir e no falar ao fazer desfilarem no palco idéias absolutamente “up-to-date” sobre a importância do design, lembrando que “marcas são a expressão máxima da cultura de uma empresa; são as grandes forças da economia moderna; são ferramentas de negócio; elas aumentam o poder de negociação e definem a reputação das corporações; marcas inspiram pessoas, por isso, exigem diferenciação, propriedade, relevância e consistência em suas existências”.

Infelizmente, estão ainda aquém do desejado as empresas brasileiras nos cuidados e investimentos requeridos por suas plataformas de marca, segundo Ana Couto, que encerrou a palestra com enfatismo: “Branding é manter a consistência”.

autora: Gisele Centenaro
fonte: Portal da Propaganda

2 Comentários

  1. Deveriam incluir nessas palestras e debates, algo fora da filosofia de Designer para focar mais o desenvolvimento do design na internet, em formas de sites, é claro. Vejo muito designer que faz obras maravilhosas mas que na hora de desenvolver um site, faz algo bonito para os cenceitos de “design-de-faculdade”, porém totalmente inviável aos padrões web(developer/designer).

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