Uma boa idéia só é boa quando vira assunto de motorista de táxi

Não sei se sou só eu, mas tenho reparado que cada vez mais a propaganda se torna uma coisa estranha e incompreensível.
Ligo a TV e vejo comerciais de carro que usam lagartixa para dizer que são fantásticos nas curvas ou que mostram a cidade de São Paulo sem gente para ilustrar o mundo maravilhoso de quem tem aquele carro.

Abro uma revista e vejo um anúncio com a imagem de uma pia mergulhando em um mar de tinta vermelha ou outro com uma garota que, em vez de cabelos, tem um monte de molas penduradoa na cabeça. O primeiro, imagino, quer vender a pia. O segundo parece que quer vender um shampoo para cabelos encaracolados.

Fico pensando se alguém olha para o carro e a lagartixa e diz: pô, era isso que eu queria. Ou acredita que a paz que o outro modelo proporciona vai deixá-lo feliz no engarrafamento da marginal Pinheiros.

Fico imaginando a mulher que está reformando a casa e folheia as revistas para escolher a louça sanitária e se depara com essa pia menstruada. Será que ela irá correndo até a loja? Ou, se a menina que acha os seus lindos cabelos cacheados um horror, ao ver aquele anúncio, não ficará com vontade de pegar uma tesoura e tosar sua cabeleira. Ou pior: fazer uma dessas chapinhas que deixam a pessoa com jeito de espanador.

Tem coisa pior que o Zeca Hora?

Além de estranha, a propaganda anda meio arrogante, pedante e, por que não, ridícula. Ou será que sou só eu que acha uma tremenda calhordice um anunciante botar milhões para tentar convencer alguém a chamar o sagrado horário da cervejinha de Zeca Hora? Se o tal happy hour já era uma grande bobagem importada pelos paulistas, quanto mais ligar para o camarada e dizer: “E aí, mano, vamos marcar uma Zeca Hora ali no Sujinho?” Não sou nenhum saudosista, mas tenho obrigação de lembrar um comercial da Antártica com o Adoniram Barbosa que soltava o seguinte bordão: “Nós viemos aqui pra beber ou pra conversar?”. Sabe quantas vezes eu ouvi alguém usar essa expressão da propaganda nos botecos? Tantas que perdi a conta.

A Arquive e o You Tube não são parâmetros para a propaganda.

Sei e até entendo os motivos que leva a moçada aqui da agência a se estapear quando chega a Arquive para ver quem folheia primeiro. Eles são jovens publicitários e adoram aquelas bobagens. Só não entendo quando um criativo convence o cliente que mostrar uma língua vermelha e inchada para vender um catchup apimentado é uma puta idéia. Puta idéia para quem cara pálida? Tenho absoluta certeza de que nenhum consumidor compraria qualquer produto que deixa a língua em estado de miséria. Ou compraria?

O You Tube, por outro lado, nasceu e ficou famoso porque é um canal disponível para qualquer pessoa exibir seu vídeo (remember os 15 minutos de fama?). Até aí, fantástico. O problema é que os criativos inicialmente e, em seguida, a agência e os clientes entenderam que esse canal deve ser o parâmetro para julgar se um comercial e bom ou não. Nada mais equivocado. Vejo um monte de profissionais preocupados porque o comercial só foi visto por 2.740 pessoas em um mês. FOI MUITO! O You Tube não é canal de mídia.

Qualquer grande criador sabe: simplicidade é tudo, o resto é falta de talento.

Muitas vezes já cometi esse erro: pensei, pensei tanto que, quando o anúncio ficou pronto, só eu entendia. E é isso que a gente deve ter na cabeça sempre. Nós trabalhamos com propaganda, somos vendedores, temos obrigação de usar argumentos que os consumidores entendam. Claro que devemos procurar um jeito diferente para falar a mesma coisa que outros já falaram. Mas isso, de forma nenhuma, significa ser incompreensível. Entrar em um táxi e ouvir o motorista usar uma expressão que você utilizou em uma campanha vale muito mais que qualquer uma dessas centenas de prêmios que enchem as prateleiras das agências e inflam os egos dos criadores.

autor: Wander Levy
fonte: Acontecendo Aqui

Assine Nossa Newsletter • Se você deseja receber as novidades do IFDBlog por email, insira o seu logo abaixo:

 

3 Comentários

  1. Muito bom!
    Também acho a mesma coisa.
    E, complementando, o que vocês acham daqueles canais de TV a cabo que falam mal de seus produtos, o Sony principalmente?
    Será que pensam que sendo pedantes e arrogantes cativarão a audiência?
    Tem de ter a mente muito perturbada.

  2. Concordo totalmente, aquela campanha do Zeca Hora é horrível e os caras ainda me aprovam isso, vai ter mau gosto assim na….

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *