Quando a publicidade é vítima

Eu achei muito ruim este anúncio da Adidas, embora reconheça que tem lá sua beleza plástica e pode ser que tenha agradado ao público ao qual se destina (que, pelo jeito, não sou eu). Na minha opinião, é publicidade ruim. Pra mim, a má publicidade se torna ainda pior quando a produção é boa. Explico-me: se o anúncio não diz nada, prefiro que seja ruim do início ao fim, ao invés de tentar maquiar a mediocridade com super efeitos ultra tecnológicos de última geração, o que de quebra gasta uma dinheirama do cliente à toa. Dá um dó danado. Mas quem sou eu, pra ter direitos exclusivos sobre ela, a esbofeteada publicidade? Neste caso da Adidas, os efeitos nem são assim a fina flor da modernidade. Mas certamente investiram uma boa grana pro cachê do tal D. Rose, que não é o mestre da swásthya yoga, e sim um famoso jogador do basquete estadunidense. Em todo caso, Adidas é Adidas e, como diz o outro, dinheiro é feito pra gastar.

Mas hoje não quero falar do anúncio em si, mas de algo curioso que ouvi na tevê espanhola motivado por essa peça publicitária. É digno de nota. Vai ser jogo rápido. Antes, um breve panorama, só pra contextualizar.

Primeiro, sobre as emissoras de tevê espanholas. Todas elas têm clara inclinação a um dos dois partidos políticos existentes no país. E os partidos aqui são praticamente só dois mesmo (PP e PSOE). Mas, bem, a emissora da Comunidade de Madrid, a Telemadrid, joga do lado do conservador PP, que é quem governa a Comunidade atualmente (lembrando que o outro partido, o PSOE, do Zapatero, manda-chuva mor do país, é supostamente de esquerda – como se isso ainda significasse algo hoje em dia).

Mais uma contextualização necessária: a Catalunha, outra região espanhola, arqui-rival de Madri (podemos fazer um paralelo com Rio-São Paulo, mas acrescentando o espinhoso fato do desejo separatista catalão – até o idioma lá é outro), foi o primeiro estado espanhol a ter a coragem de abolir as touradas. Eu, estrangeiro desenraizado dos costumes daqui, aplaudi a decisão. Mas a parte conservadora do país, que é muito grande (lembro também que a Espanha é um país “velho”), viu nisso uma afronta aos costumes nacionais. Acabo de me lembrar do meu amigo ilhéu-catalão Xavier. Dá seu pitaco aí, meu camarada, e diz se tô falando muita besteira.

Redator é um bicho que escreve muito mesmo. Haja saco. Não quero me meter nem em política nem em touradas. Vamos ao fato: outro dia no debate matutino da Telemadrid, com a presença de políticos e personalidades, passaram o anúncio da Adidas, que é estadunidense, e logo a apresentadora alfinetou algo no estilo “vejam só, telespectadores, até os americanos valorizam nossa tourada, e a Catalunha está desprezando toda essa tradição”. Fiquei bege, como se dizia no meu tempo. Dá pra passar umas três páginas comentando essa frase, mas não se preocupem que eu não vou fazer isso.

Só uns comentariozinhos despretensiosos, e o resto eu deixo pra vocês: o que choca inicialmente, pelo menos a um gringo como eu, é ver uma emissora defender a tourada sem o menor constrangimento. Pra quem vê de fora, como nós, está claro que aquilo é uma barbárie, uma tortura que causa prazer aos espectadores através do despertar dos mais sórdidos e cruéis sentimentos humanos. Dá pena do animal e também do público, que se entusiasma com a tortura e a morte (só não dá pena dos toureiros, que de vez em quando levam suas merecidas chifradas). É curioso ver também a Telemadrid atacar abertamente a decisão da Catalunha. É uma falta de diplomacia que poderia ser poupada, afinal o tema tourada não tinha nada a ver com o programa, que geralmente trata de economia e política. Por último, dizer que “ATÉ os americanos valorizam” é abrir as pernas pros caras totalmente, como se a opinião dos estadunidenses valesse mais que qualquer uma. Além do mais, a partir desse anúncio é falso afirmar que os americanos valorizam a tourada. É uma leitura que tenta grosseiramente manipular. Nesse caso, o pobre filme da Adidas foi vítima. Foi utilizado para fins escusos. Prometi não escrever muito e então paro por aqui. Tenho outro toque pra dar, logo abaixo.

autor: Sérgio Massucci Calderaro
fonte: Acontecendo Aqui

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Um comentário

  1. Acho que muitos dos anúncios hoje em dia estão perdendo o foco, que é expor a marca.
    Vejo uma grande quantidade de comerciais que são cheios de efeitos especiais, mas no final você para pra pensar e não tem nem idéia de que empresa que fez aquilo.
    É pra ser bem feito, mas não precisa ser uma super produção se não trabalhar a marca.

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