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A incrível história da música de abertura de “Mad Men”

A peça instrumental que embala a sequência de abertura de Mad Men não foi composta especificamente para a série. Na verdade, tem uma história longa: tudo começa com o baterista Bernard Purdie – que você provavelmente não sabe quem é, mas com certeza já ouviu tocando.

Purdie, que hoje tem 77 anos, é um dos últimos herdeiros vivos da tradição das house bands (“bandas da casa”). Nas décadas de 60 e 70, artistas das gravadoras Motown e Stax – como Aretha Franklin, Marvin Gaye, Otis Redding, Sam & Dave e outros gênios do soul e do funk – eram acompanhados por instrumentistas extremamente talentosos, que passavam o dia escondidos no estúdio e às vezes sequer eram creditados nos encartes.

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Eles eram pagos por sessão, aprendiam o arranjo na hora, acertavam a gravação no primeiro take e partiam para a próxima. Como eram responsáveis pela identidade sonora de todos os lançamentos de uma determinada gravadora, criavam um vínculo musical muito intenso entre si. Essas bandas “de aluguel” chegavam até a gravar álbuns próprios – é o caso do Booker T. and the M.G.’s, da Stax, responsável pelo clássico blues Green Onions.

Essa tradição não era exclusiva da música negra de Detroit: também rolou no rock branco da Inglaterra. Jimmy Page foi músico de estúdio até estourar com o Led Zeppelin: tocou guitarra base na faixa “I Can’t Explain”, a primeira do The Who, e cover de Joe Cocker de “With a Little Help from my Friends”, canção do álbum Sgt. Peppers.

Nenhum desses músicos, porém, supera a onipresença de Bernard Purdie: “Eu estou em mais de 4 mil álbuns”, diz ele em praticamente toda entrevista. Ninguém foi contar, mas ninguém discute. “Eu nunca olhei para nenhum deles como uma grande oportunidade. É o meu trabalho. Eu era pago para fazer o meu trabalho.”

Alguns dos sons no currículo de Purdie: “What a Wonderful World.” “It’s a Man’s Man’s Man’s World.” “The Revolution Will Not Be Televised.” “Rock Steady.” Ele deu nome até a uma levada de bateria característica, o shuffle do Purdie, que ele ensina a tocar neste vídeo do YouTube.

O que nos leva à canção “Heavy Soul Slinger”, que Purdie gravou em 1972 no álbum Soul Is… Pretty Purdie. É essa a trilha de bateria que você ouve na abertura de Mad Men.

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Mas só a bateria: a orquestra veio de outro lugar.

Mais precisamente, de uma versão de Autumn Leaves, um clássico do jazz, cujo arranjo foi feito pelo band leader Enoch Light. Light nasceu em 1908, foi treinado para tocar música erudita no violino, se tornou um dos primeiros engenheiros de som e acabou alcançando a fama por liderar as bandas de jazz típicas de desenho animado que animavam bailes nas décadas de 20 e 30.

O título da música significa, em inglês, “folhas do outono”. As folhas do outono caem lentamente, ao sabor do vento – mais ou menos no ritmo dos violinos no arranjo do Light (e, é claro, mais ou menos no ritmo em que Don Draper cai por entre os arranha-céus de Nova York durante a abertura).

Dá só uma olhada – quer dizer, uma ouvida – na gravação original. Ela é de 1958, do álbum Melody of Love.

Essas duas gravações distantes se encontraram graças ao DJ, produtor e compositor RJD2 (não confundir com RD-D2, o robô de Star Wars). Em 2006, RJD2 gravou um álbum com o rapper Aceyalone. No hip hop, é comum usar de “cama” para a performance vocal um pastiche de trechos de músicas mais antigas. RJD2 pegou então a batida de Purdie, a orquestra de Light, sobrepôs os dois e colocou no repeat para Aceyalone cantar em cima (essa prática é conhecida pelo verbo samplear). Ficou assim:

Já estamos chegando perto do resultado final. RJD2 gostou tanto dos samples que fez para o álbum Magnificent City que resolveu lançá-los em versões puramente instrumentais num álbum próprio. E assim nasceu a abertura de Mad Men. Ouve aí:

Um belo dia, Matthew Weiner, o criador de Mad Men, estava ouvindo o programa de rádio Marketplace da NPR no carro quando ouviu o instrumental de RJD2 usado como música incidental, para preencher espaço entre duas reportagens. “Ela tinha tudo que precisávamos”, afirmou em entrevista. “Soava como um filme grande e antigo, mas com uma batida atual, e era dramático. Eu simplesmente amei.”

Talvez seja algo ainda mais profundo do que isso: no início da abertura, ouvimos apenas a orquestra de Autumn Leaves, e Don está sentado em seu escritório, em uma posição de poder, cercado de garrafas de conhaque e uísque. Ele é um homem engomado de terno, e ouve jazz, que é a música do seu tempo. Ele está confortável.

Quando entra a bateria de Bernard Purdie – que era a vanguarda da música pop na década de 1960 – Don começa a desabar, cercado de cor e cultura de massa. Ele está perdido. Na série, vemos que ele não entende, por exemplo, o fenômeno dos Beatles ou o apelo dos Rolling Stones. É um pai, que leva sua filha em shows das estrelas adolescentes da época como um pai de hoje leva a filha a um show de k-pop. Uma enorme crise de meia idade.

Ou seja: a dupla de samples – Enoch Light no começo, Bernard Purdie no final – representa dois momentos da cultura americana, e a maneira como dois Don Drapers lidaram com esses momentos: o Don confiante do começo, e o Don em crise do final.

autor: Bruno Vaiano
fonte: Super Interessante – Cultura

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