A marca do designer

Dia desses caí numa discussão com um designer (vamos chamá-lo de Carlos) sobre a divulgação da marca do autor em um projeto. Ele trabalha com design gráfico aplicado a veículos (aviões, trens, ônibus, etc) e dizia que penava para convencer seus clientes a colocar o logotipo dele nos veículos. Compreendo perfeitamente os clientes. Eu também não ia deixar de jeito nenhum.

Vamos aos argumentos do Carlos:
1. Colocar o logotipo no projeto mostra que ele o trabalho foi desenvolvido por um designer.
2. Se todos fizerem isso, cada vez mais o design será identificado pelo público e o autor terá o seu reconhecimento.
3. Ao colocar a sua marca, o designer está assumindo publicamente a autoria do trabalho perante o mercado, responsabilizando-se pelas conseqüências advindas disso.
4. As associações internacionais incentivam essa prática no mundo todo.
5. Ele me diz que, se eu não concordo com isso, estou infringindo a lei de direitos autorais.
6. Há veículos, como o Fiat Stilo, que levam o nome do designer aplicado na porta, então a prática já tem adeptos importantes.

Bom, então vamos a cada item.
1. Como a profissão de designer não é regulamentada, nada impede que um micreiro coloque lá o seu logotipo. Assim, uma marca gráfica no projeto não é garantia de nada.
2. O reconhecimento e a divulgação do trabalho de um profissional é problema dele, não do cliente. Imaginem se eu contrato um pintor para fazer uma parede com textura e o sujeito decide colocar o seu logotipo discretamente num canto, bem ao lado do que o pedreiro, o arquiteto e o designer de interiores deixaram. Ou vocês acham que esses profissionais não merecem reconhecimento? Por que só designer teria direito de colocar o seu nome? E o ilustrador, o fotógrafo, o maquiador, o diretor de arte e toda a equipe que trabalha numa campanha publicitária? É para isso que existe a ficha técnica, onde aparece o nome de todo mundo para quem quiser saber, mas não ocupa uma parte do projeto gráfico que sai na revista.
3. A responsabilidade pública sobre um trabalho acontece a partir do momento que o profissional assina um contrato comprometendo-se a fazê-lo. Com ou sem marca gráfica aplicada, a responsabilidade é a mesma. Aliás, o contrato vale como documento, a marca não.
4. As associações internacionais realmente incentivam essa prática? Que eu saiba, a recomendação é que a autoria seja reconhecida, mas isso pode ser feito de inúmeras outras formas além da que aplicação do logotipo. A ficha técnica ou o memorial descritivo do projeto, por exemplo.
5. Eu infrinjo a lei autoral quando digo que um trabalho feito por outra pessoa é meu. É preciso os interessados tenham acesso ao nome do autor, mas isso não precisa necessariamente ser feito com a aplicação de um logotipo. Posso colocar o nome do fotógrafo no final do trabalho, não necessariamente em cima da foto. Quando você cede os direitos de uso de uma imagem, o cliente não é obrigado a colocar o seu nome na arte final, ele só é obrigado a reconhecê-lo como autor. Você sabe quem faz a arte para os anúncios da coca-cola? Eu não, mas, se quiser saber, é só olhar a ficha técnica (o designer pode ter também um bem divulgado portfólio virtual). As empresas que usam trabalhos de fotógrafos, designers, ilustradores e outros profissionais não saem colocando o nome de todo mundo na arte final e nem por isso estão infringindo direitos.
6. No caso do Fiat Stilo, por que só o nome do designer do carro consta na porta? E o designer que fez as estampas dos bancos? E os designers que trabalharam no painel? E o designer gráfico que fez o manual do carro?

Aliás, esse último ponto merece atenção especial. Sabe por que só aparece o nome do Giugiaro? Por que ele se tornou objeto de desejo. As pessoas querem o nome dele no carro, isso ajuda a vender. Isso se chama branding! Aí é que está o cerne da questão.

Uma marca vai muito, mas muito além da sua expressão gráfica. As pessoas desenvolvem relações emocionais com as marcas e estas têm que prover experiências para conquistar respeito e admiração. Logo que a minha cozinha ficou pronta, a primeira coisa que eu fiz foi descolar o horroroso logotipo da empresa que a fez (e ai se estragasse a porta, eu iria pedir para trocar). Mas coloco a maçãzinha da Apple de livre e espontânea vontade na minha moto. Sabe por quê? A Apple fez por merecer a minha admiração e nem vou explicar porquê por motivos óbvios; relações emocionais não são racionais. A percepção de cada pessoa é diferente. Tem um monte de designers que já entenderam isso e os clientes pagam e fazem questão de colocar seu nome na arte final de um projeto porque agora sim, isso significa garantia de procedência e valor emocional.

Então, para que um profissional se torne conhecido e respeitado, o caminho não é carimbar o seu logotipo por aí, contra a vontade de seus clientes (que, só para lembrar, precisam ser seduzidos, não irritados).

Há que se fazer trabalhos muito bons, divulgar seus projetos, ganhar prêmios, alimentar uma boa rede de contatos, garantir que o Google sempre vai associar seu nome a coisas que lhe interessam, além, é claro, de deixar seus clientes nada menos que encantados (eles são os melhores divulgadores em marketing de serviços). Se o seu trabalho ficou realmente bom, não se preocupe em deixar seu logotipo. Se alguém quiser contratá-lo, vai perguntar ao seu cliente quem fez e ele, satisfeito, vai indicá-lo com gosto.

É isso, Carlos. Eu penso que valor não se impõe, se conquista. Penso também que branding deveria fazer parte da matriz curricular dos cursos de design gráfico…

autora: Ligia Fascioni
fonte: Acontecendo Aqui

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