“Social media” e a estupidez elevada à potência

A internet e as redes sociais nos permitiram algo que a humanidade nunca experimentou antes: a possibilidade de dizer o que se pensa a qualquer momento. Pareceria democracia…

Certamente, é liberdade de expressão. Mas aí nos deparamos com outro problema: até que ponto se pode dizer tudo o que se pensa?

Vamos voltar a algumas décadas atrás. Além da falta de condições de falar para o mundo o que se pensava, pois a internet não existia, tínhamos outro problema: se falássemos tudo o que pensávamos para qualquer um, a qualquer momento, iríamos ter que conviver com as consequências. Seria uma relação rompida, uma reação desagradável, uma ofensa, uma dor, uma briga, uma desavença, um atrito…

Na vida real, tudo isso não some com um clique. Significa dias ou semanas e meses, ou anos, até para consertar um relacionamento. Brigar com o vizinho pode levar a ter que mudar de casa, imaginou o transtorno? Uma desavença em família ou no relacionamento pode causar um impacto emocional que se arrasta por muito tempo.

A internet, ao contrário, nos dá a ilusão de que somos poderosos e nada nos afeta. Basta bloquear a pessoa, deletar o post, xingar impunemente. Fácil.

E estúpido.

Não tendo confronto físico não temos limites.

Mas não é só a falta de confronto físico que a internet e as redes sociais proporcionam. Vivemos a total ausência de confronto intelectual.

O conhecimento surge na partilha de ideias. Estas evoluíram no curso do tempo devido à reflexão crítica e ao repensar de inúmeros indivíduos que se confrontaram com conceitos e com outros indivíduos para “co-criar”.

O conhecimento é uma construção coletiva que está baseada na reflexão que leva a conclusões que todos os pensadores sabem serem provisórias, até uma nova versão, mais aprimorada e precisa daquela ideia, surgir.

Isso é pensar.

No lugar do pensar, assistimos hoje ao vomitar de pensamentos já prontos e empacotados que, como a “briochinha superprocessada” do posto de gasolina, melhor seria jogar direto no lixo. Pensamentos assim não nutrem as mentes, as poluem.

Lendo a frase de efeito, sem muitos livros na cabeça nem muita prática reflexiva, esta ressoa na cabeça da pessoa, atraída pelas demais frases de efeito que ela ouviu por aí (apesar da maioria nunca ter sido portadora da verdade). Resultado final: grande confusão mental.

É o que vemos hoje em dia na internet: tudo pode ser dito – tudo e o contrário de tudo.

E então percebemos algumas coisas:

1. Que estamos assistindo à sombra coletiva: o mal-estar de cada um projetado e gritado em público – sem resultado algum, fora mais mal-estar pessoal e coletivo.

2. Que o vazio de pensamento crítico é abissal. Não há criação, reflexão, produção de algo novo.

3. Que o resultado de uma cultura superficial e consumista é a inflação irresponsável do ego, que leva a egoísmo, egocentrismo e ao triunfo das aparências.

São os tempos da estupidez elevada à potência.

Pior do que a ignorância, a estupidez implica falta de discernimento, incapacidade de perceber as nuanças entre ideias, comportamentos e sentimentos. Mas não é tão simples assim. Estupidez não é simples falta de inteligência, uma vez que pessoas inteligentes podem cometer ações estúpidas.

Carlo Maria Cipolla, economista italiano que escreveu um livrinho extraordinário que teve enorme sucesso (“As Leis Fundamentais da Estupidez Humana” / título original: “Allegro, ma non troppo”), que identifica uma característica essencial da estupidez como a de causar “um dano a outra pessoa ou grupo de pessoas sem, ao mesmo tempo, realizar nenhuma vantagem para si, ou até mesmo provocando um dano para si.”

Cá estamos.

autora: Adriana Tanese Nogueira
fonte: Gazeta News / Institutossc

Para completar

As 5 leis fundamentais da estupidez humana, de acordo com Cipolla
As Leis Fundamentais da Estupidez Humana

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