Publicidade continua mantendo os jornais

Os primeiros dois anos à frente da ANJ (Associação Nacional de Jornais) “foram de trabalho muito intenso” para a executiva Judith Brito, superintendente do grupo Folha da Manhã. “Apesar de vivermos numa democracia em pleno processo de consolidação, há muito a fazer para continuar defendendo a liberdade de expressão. Também temos discutido muito a questão prática de encontrar modelos de negócios saudáveis para o jornalismo dentro do novo mundo digital”, afirmou, um dia após a sua reeleição para novo mandato de dois anos. “Nossa missão básica não muda. A ANJ foi criada para defender a liberdade de expressão, e isso continuará a ser a nossa bandeira. Temos dialogado com o poder judiciário no sentido de buscar um entendimento amplo e completo da decisão do STF que derrubou a Lei de Imprensa do governo militar. Nossa preocupação é com algumas decisões, especialmente em primeira instância, que na prática significam censura prévia. Temos também o grande desafio de encontrar soluções para que a transição para as plataformas digitais seja feita de forma a fortalecer o jornalismo de qualidade”, acrescentou.

No cenário digital, a publicidade, responsável por grande parte das receitas dos grandes jornais, “continuará sendo fonte de receita indispensável para o jornalismo em qualquer plataforma. A questão é que ainda há muitas incertezas sobre como serão distribuídas essas receitas nos modelos digitais. O risco é de a concentração das grandes plataformas tecnológicas ser replicada de forma permanente na captação da publicidade online. Por exemplo: o Google, que é uma corporação muito competente, tem hoje mais de 90% do mercado de links patrocinados no Brasil, já que é proprietária do maior sistema de buscas do mundo. Há uma divisão da receita desta publicidade com os produtores de conteúdo, mas não há competição, o que dificulta a negociação saudável. Da mesma forma, as empresas de telecomunicações, que detêm a infraestrutura necessária para o tráfego dos nossos conteúdos, são nossas competidoras. São cenários preocupantes, com os quais temos que lidar imediatamente”, argumentou a presidente reeleita da ANJ.

Os jornais mantêm a segunda colocação na fatia do bolo de mídia, mas o volume vem diminuindo, mesmo que timidamente. No primeiro semestre deste ano a participação era de 21,4% e o faturamento de R$ 7,5 bilhões. Apesar de ter crescido nominalmente (no mesmo período de 2009 o faturamento bruto foi de R$ 6,3 bilhões), perdeu 1% de share. “A conta do share é um pouco ingrata para os jornais, por ser este o segmento mais diversificado e desconcentrado entre as mídias. São mais de três mil jornais em todo o País, e a grande maioria deles não fornece os dados para o cálculo do share. Também há o impacto direto de certos setores que são anunciantes mais típicos dos jornais, como o imobiliário e o automobilístico.

Com a expansão desses setores, é natural que o share dos jornais volte a crescer. Outra frente é o crescimento de nossas receitas em plataformas digitais. Mas, no fundo, nossa reação tem que ser como sempre foi: com muita garra dos nossos times comerciais, que precisam demonstrar as vantagens para as marcas de anunciarem no setor que desfruta da maior credibilidade entre as mídias”, ponderou Judith.

Os principais desafios do meio jornal nesse momento de grande competitividade de mídias e o mundo digital abrigando todas elas, simultaneamente, “são continuar a ter o reconhecimento pela produção do conteúdo de qualidade. Isso significa respeito aos direitos autorais e remuneração adequada, que permita a continuidade dos altos investimentos que as empresas jornalísticas precisam fazer permanentemente para manter a produção do jornalismo investigativa e independente”, argumentou.

Como preservar o papel dos jornais e do jornalismo diante da era digital? Judith responde: “Essa é a pergunta de um milhão de dólares, para a qual o mundo ainda não tem resposta pronta. Acredito que haverá lugar para todos os modelos que já suportam a mídia tradicional: conteúdos abertos patrocinados por publicidade e conteúdos especiais de acesso exclusivo a assinantes”, finalizou.

autor: Paulo Macedo
fonte: http://www.propmark.com.br

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