Fé na mídia

Crescimento de veículos ligados a igrejas escancara disputas comerciais e gera polêmica com relação ao conteúdo

Dois fatos marcaram, em 2008, o espantoso crescimento que a TV Record vem demonstrando nesta década. No final de 2007, o Comitê Olímpico Internacional anunciara a concessão para a rede paulista da transmissão das Olimpíadas de Londres, em 2012. Durante todo o ano, a Globo buscou o direito de também transmitir o evento, ainda que tivesse de dividi-lo com a concorrente. Foi um jogo duro.

A própria Globo se admitiu frustrada pela expectativa de quebrar a tradição de transmitir as Olimpíadas desde os anos 1970. Por outro lado, os telespectadores deram-se conta da gigantesca perda de status que a concessão terá significado para a emissora da família Marinho. A rede reclamou dos valores anunciados pela Record, que desembolsou US$ 60 milhões. Para a Globo, a cifra está muito acima da realidade do mercado brasileiro. No final do ano, contudo, acabou fechando um acordo com a Record, não para retransmitir a programação no sinal aberto, mas apenas para os canais por assinatura da Globosat. Segundo a Folha de S.Paulo, o valor que a emissora teve de desembolsar para a concorrência foi de US$ 22 milhões. A Globo vai pagar para transmitir, em sinal fechado, quase o dobro do que pagou para exibir em sinal aberto e com exclusividade as Olimpíadas de Pequim, em 2008: US$ 12 milhões. Na lista de reclamações da emissora carioca pairou o tempo todo a expressão “Igreja Universal do Reino de Deus”, que, contudo, jamais foi citada textualmente. Universal e Record são partes do mesmo grupo, centrado na nacionalmente conhecida figura do bispo Edir Macedo. Para a Globo, a concessão das Olimpíadas não seria possível com a mera arrecadação comercial da programação ordinária da rede; é isto, afinal, o que significa “estar fora da realidade do mercado”. Mas a Record é campeã de arrecadação nas madrugadas, já que terceiriza sua programação, vendendo-a inteiramente para a igreja. A pergunta que a Globo jogou no ar foi: como a emissora poderia ter anunciado um valor tão inflado? Mal-estar na Record Aqui entra o segundo fato que marcou o ano de ascensão da emissora paulista: o vice-presidente comercial da TV Record, Walter Zagari, anunciou em novembro que até 2009 a Igreja Universal sairia da grade da emissora.

O anúncio surpreendeu muita gente, aparentemente até dentro da própria emissora: antes mesmo de o mês terminar, Alexandre Raposo, o próprio presidente da companhia, negou a informação. O anúncio de Zagari trouxe momentaneamente à tona o que talvez seja um mal-estar comum entre executivos da Record. Fortemente profissionalizada, com um staff composto por alguns dos maiores especialistas da TV brasileira – muitos deles vindos da própria Globo -, a rede ainda estaria incomodada com o fato de, no final, ter seu crescimento tão dependente da Universal. A igreja, por outro lado, seria um obstáculo para que esse crescimento se desse de maneira mais livre: na década passada, pelo menos dois acontecimentos deram à concorrência argumentos para tirar audiência do canal. Houve o famoso episódio no qual um pastor chutou uma imagem de Nossa Senhora, ao vivo, provocando enorme indignação da comunidade católica; e um vídeo, divulgado pelo Jornal Nacional, da Globo, em que o próprio Edir Macedo orientava novos pastores sobre como arrecadar dinheiro entre os fiéis. A disputa comercial ganhou ares de guerra santa. Por algum tempo, a Record saiu na pior e perdeu audiência entre não-adeptos da igreja – muitos da maioria católica brasileira que, segundo o último senso do IBGE, realizado em 2000, ainda era superior a 73%. Enquanto isso, poucos foram os grupos, quase sempre evangélicos, que deixaram de sintonizar a Globo em razão da briga.

A completa profissionalização da emissora, limitando a grade a programas seculares, talvez tirasse do caminho a possibilidade de boicote por uma audiência não fiel a preceitos evangélicos ou da Universal. Mas a igreja, por enquanto, fica na programação. Enquanto isso, a emissora paulista mantém com a adversária uma diferença de regimento: ao poder cada vez mais forte da emissora soma-se o poder da igreja para concorrer com a Globo, cujo Manual de Práticas Comerciais veta a chamada propaganda religiosa. “No caso da religião, veiculamos gratuitamente mensagens institucionais sobre temas com que concordamos, promovidas pelas mais diversas tendências que nos procuram. Mas não vendemos publicidade para proselitismo religioso ou para quem trata religião como produto”, afirma o diretor Luiz Erlanger, da Central Globo de Comunicação. A disputa entre as duas emissoras suscitou o debate sobre a participação dos grupos religiosos em empresas de comunicação no Brasil. Não se trata só da televisão: uma breve passada no dial das rádios paulistanas pode dar ao ouvinte uma idéia do crescimento da participação das igrejas: talvez metade das rádios difunde programação religiosa – sem contar as rádios comunitárias. Nos anos 1980, o número não chegava a uma dezena. Política e comunicação As igrejas evangélicas dominam amplamente o espaço e vêm, por isso, atraindo a atenção da comunidade acadêmica. Em agosto, o professor Valdemar Figueredo Filho defendeu sua tese de doutorado em Comunicação no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), mostrando a maneira como algumas igrejas evangélicas galgaram posições na política nacional por meio, justamente, da construção de verdadeiros impérios de comunicação. Seu levantamento é minucioso.

Vem dos anos 1980 e mostra que, ao mesmo tempo em que cresceram na mídia – quer comprando espaço nas redes já existentes, quer adquirindo TVs, rádios e editoras -, determinadas igrejas evangélicas criaram e aumentaram gradativamente suas bancadas no Congresso Nacional. Enquanto na legislatura de 1983 a 1987, 12 eram os deputados e senadores que representavam uma igreja, na última legislatura, de 2003 a 2007, este número quintuplicou, subindo para 61. A maioria pertence a três igrejas evangélicas: a Assembléia de Deus, com 22 parlamentares, a Universal, com 17 e a Batista, com 10. Completaram o quadro políticos ligados às igrejas do Evangelho Quadrangular, Luterana, Presbiteriana, Sara Nossa Terra e Internacional da Graça de Deus. Os números da atual legislatura só poderão ser fechados quando ela tiver chegado ao fim, uma vez que tem sido grande a rotatividade de parlamentares no Congresso, assim como é grande o número de suplentes vinculados a igrejas. “É claro que há mais homens religiosos no Congresso”, diz Figueredo.

“Mas o que diferencia esses parlamentares é que eles, de fato, representam a igreja, são eleitos por seus fiéis e, ao se desligar da instituição, perdem os votos relativos a ela.” O que vem a seguir, no estudo do professor, é o modo como as igrejas conseguiram crescer politicamente. Não por coincidência, as duas maiores bancadas religiosas estão ligadas a igrejas que são também algumas das maiores beneficiárias de concessões de rádio e TV no Brasil. A Universal, por exemplo, além da Record e de outros canais menores, mantém nada menos do que 30 rádios nas capitais brasileiras; a Assembléia de Deus, 15. Conglomerado Como cientista, contudo, Figueredo não julga necessariamente ruim o crescimento da participação evangélica na mídia brasileira. Lembra que, por décadas, o catolicismo foi onipresente nas mídias mais representativas do Brasil e até hoje ninguém as questiona por isso. A Globo, campeã de audiência, transmite há 40 anos uma missa católica nas madrugadas de domingo. Para o pesquisador, se cabem críticas ao modo como os evangélicos conquistaram a mídia, elas fazem parte de um debate mais antigo e amplo e que é endereçado também à maioria dos grupos seculares: no Brasil, há décadas, as concessões de rádio e TV são transmitidas como moeda política, em troca de votos e outros interesses. É possível captar na ascensão das evangélicas um sinal do sucesso daquele que foi seu plano inicial. Em seu trabalho, Figueredo dividiu as igrejas em três classificações: na primeira, as mais tradicionais, luteranas e calvinistas, fundadas há cerca de cinco séculos na Europa, durante a Reforma Protestante; na segunda, as chamadas missionárias, surgidas nos EUA, entre elas, as igrejas Metodista e Batista. O terceiro grupo é o das pentecostais e neo-pentecostais, que incluem a Assembléia de Deus e a Universal. Uma das diferenças entre o segundo e o terceiro grupo para o primeiro é o seu caráter de proselitismo: elas têm a tradição de arrebanhar novos fiéis para seus dogmas. E o rádio e a TV são, desde sua invenção, instrumentos úteis nesta missão. “O próprio comportamento dos pastores, seu gestual e sua maneira de discursar, é moldado para a mídia”, lembra Figueredo. Daí que os maiores grupos ligados a igrejas sejam verdadeiros conglomerados de comunicação, que não trabalham apenas com TV e rádio, mas também mantêm jornais, editoras e grandes portais na internet. A Folha Universal, mantida pela igreja que controla a Record, é um dos maiores jornais em tiragem no Brasil: segundo o seu site, são expedidos 2,3 milhões de exemplares por edição semanal. A Fundação Renascer mantém a Rede Gospel, que inclui uma gravadora à qual está vinculado um extenso elenco de cantores e músicos. Em suas atividades, é comum a cross media, operação de comunicação que casa o uso de diferentes meios. A TV veicula videoclipes dos cantores do cast da gravadora e os impressos divulgam os discos desses artistas.

O portal da Renascer tem, ainda, uma rádio online. A Rede Mundial, ligada à Legião da Boa Vontade, uma entidade dificilmente classificável dentro do grupo de igrejas cristãs, também tem grande estrutura: rádio, TV e editora. Legalmente, nenhuma dessas corporações goza de qualquer vantagem pelo fato de estarem ligadas a entidades religiosas. Elas pagam os mesmos impostos, estão submetidas aos mesmos deveres previstos em lei. A reclamação dos grupos de comunicação seculares vem do fato de as igrejas que as apóiam, estas sim, terem as facilidades que a legislação dedica a templos e grupos religiosos. Não há, por exemplo, controle público sobre a arrecadação obtida pela Universal com o dízimo, e supõe-se que é com ela que a igreja paga a sua inserção nas madrugadas da Record. “Fico pensando: qual seria a reação se a TV Globo fosse remunerada pela Igreja Católica para transmitir suas missas?”, pergunta o diretor da Globo, Luiz Erlanger. O SBT, até há alguns anos segundo lugar inquestionável em termos de audiência, é outro canal dirigido por um grupo secular e que não exibe cultos, mesmo em sua programação terceirizada. Não o faz, contudo, por mera opção, e não em razão de regimento interno. “O dia em que um grupo religioso oferecer um dinheiro significativo, podemos mudar essa opção. Se a Igreja Universal pagar para o SBT o mesmo valor que paga para a TV Record pelo horário da madrugada, com certeza o SBT mudará de idéia”, informou a TV. Proselitismo Há, ainda, a questão do conteúdo veiculado pelas redes. O proselitismo domina, mas há fortes diferenças entre elas.

A grade da TV Gospel é dominada pelos programas Clipe Gospel, Bíblia em Debate, Escola de Profetas e Mensagem de Esperança. Há pouco material de conteúdo secular, quase todo terceirizado, como Sebrae e Documentários. A católica Rede Vida, segundo seu próprio diretor, o jornalista Monteiro Netto, tem 35% da programação religiosa – como missas e debates – e o resto é secular, “todos os programas respeitando a fé da religião católica e das outras igrejas, e sempre voltados à família”. De fato, em suas transmissões em sinal UHF, a Rede Vida divide-se entre O Pão Nosso e Campeonato Paulista Feminino; entre Terço Bizantino e Este é Meu Brasil. Por seu turno, a Rede Mundial, que se classifica como educativa, apresenta uma gama grande de programas seculares: Biosfera, Telessupletivo e Hip Hop em Ação são alguns deles.

O que não a impede de transmitir o tradicional Programa Boa Vontade, com Paiva Netto, três vezes por dia, e outros como Soldadinhos de Deus. Tanto a Rede Mundial como a Legião da Boa Vontade se dizem TVs e entidades educativas, embora os seus funcionários sempre atendam ao telefone com a frase “Deus está presente”. “Dizer-se educativa é uma bela saída”, ironiza o professor Laurindo Lalo Leal Filho, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e da Faculdade Cásper Líbero e notório crítico da maneira como é conduzido o conteúdo da TV brasileira. Um dos desafios da sociedade, para ele, é tornar mais rigorosa a legislação que incide sobre as redes de televisão – que, afinal, são concessionárias de um serviço público. “As emissoras de TV só têm direitos. Não têm obrigação nenhuma!” Com isso, Lalo critica as relações, segundo ele, ora promíscuas, ora paternalistas, entre a televisão e o poder, e que são responsáveis por certa veleidade com que os negócios das rádios e TVs religiosas seriam conduzidos. Há uma série de leis que incidem sobre as TVs, inclusive as de sinal fechado (via satélite ou a cabo). Mas se, por um lado, essas leis já são muito antigas – quase todas vêm do tempo do regime militar ou de antes -, por outro muitas vezes a legislação nem mesmo é obedecida ou fiscalizada. Pelo decreto-lei 236, que é de 1967, uma emissora educativa não pode veicular anúncios. Todas veiculam, ainda que fornecendo justificativas jurídicas.

Nem o decreto-lei nem o Código Brasileiro de Radiodifusão, que é de 1962, coíbem a veiculação de material religioso. A única menção ao assunto é o artigo que considera infração a veiculação de campanha discriminatória de religião por parte de quaisquer canais de TV. Em tese, portanto, não está proibida a vinculação do canal com uma igreja ou confissão religiosa. É justamente essa frouxidão legal que criticam os especialistas no assunto. Sem uma amarra, não apenas as corporações dirigidas por igrejas têm liberdade para fazer o que bem entendem com suas programações, como mesmo as empresas seculares podem ceder grande espaço para programas terceirizados cheios de proselitismo religioso. E isto acontece muito, considera o jornalista e sociólogo Venício A. de Lima, da Universidade de Brasília. Para ele, a consideração de que a programação evangélica ajuda a democratizar os meios de comunicação não procede, porque outras religiões estão na disputa. Entre elas, as chamadas religiões afro-brasileiras, como a Umbanda e o Candomblé, que têm muitos praticantes, mas pouquíssima exposição midiática. Baixo nível A campanha Ética na TV – Quem financia a baixaria é contra a cidadania, criada pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, divulga em sua página as reclamações redigidas por telespectadores de todo o Brasil contra o que podem considerar baixo nível da programação. Das últimas 200 reclamações registradas em 2008, apenas duas são contra programas religiosos. Nenhuma reclama do proselitismo em si, mas do que considera abuso da boa-fé de seus seguidores, ao apresentar “milagres” e exibir imagens de pessoas “possuídas por espíritos malignos”, tudo para supostamente “pedir dinheiro”. Para um dos coordenadores da campanha, Augustino Pedro Veit, o baixo número de reclamações é um sinal de que o povo brasileiro tem consciência da pluralidade religiosa.

“Quando uma religião agride a outra, então você tem uma forte reação, que é também um posicionamento contra a intolerância religiosa.” Veit conta que a campanha já conseguiu alguns direitos de resposta para grupos de religiões afro-brasileiras. Mas, para ele, poucas pessoas reclamam da cobrança de dízimo, por haver uma idéia de que “paga quem quer”. A mostra de civilidade vem daquele que é, em última análise, o verdadeiro dono do espectro da rádio-difusão: leitor, telespectador, ouvinte, público-alvo ou cidadão. Ele pode ter uma religião ou nenhuma; mas, sendo civilizado, vai respeitar a religião dos outros. E até tem se mostrado ciente de um detalhe conhecido por acadêmicos e profissionais envolvidos com TV: a religião é uma segmentação, uma formação de público-alvo para uma disputa que, no fim e ao cabo, é tão-somente comercial.

autor: Léo Bueno
fonte: Portal da Comunicação

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