Como mídias sociais e orçamentos enxutos derrubaram cinco mitos eleitorais

Jair Messias Bolsonaro possuía um espaço de poucos segundos no horário eleitoral gratuito na televisão. Vítima de um atentado durante a campanha, desfalcou os debates nas duas emissoras de televisão mais populares do país. O pouco tempo nesta plataforma, entretanto, não atrapalhou a caminhada do candidato do PSL, que recebeu quase 50 milhões de votos e por pouco não se elegeu ainda no primeiro turno. O presidenciável surge como exemplo de uma mudança de panorama da forma de fazer política no Brasil, conforme ratificaram os números após o pleito de domingo.

Bolsonaro investiu boa parte dos seus recursos – financeiros e intelectuais – para a internet, especialmente as redes sociais e aplicativos de comunicação instantânea, como o WhatsApp. Deu certo, já que, com a bênção do candidato, o PSL atingiu uma bancada numerosa na Câmara, considerando que a legenda era nanica há quatro anos — o crescimento foi de um deputado federal para 52.

O candidato do PSL declarou ter gasto R$ 1.238.040,48 no primeiro turno da campanha. Suas maiores despesas, declaradas junto ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), foram com uma agência de viagens (R$ 250 mil) e com a produtora de vídeos Mosqueteiro Filmes, que recebeu R$ 240 mil. A campanha do PSL declarou ainda ter gasto R$ 100 mil com criação e inclusão de páginas na internet.

A internet se mostrou fundamental não apenas no âmbito do Executivo e não foi favorável só ao candidato de extrema-direita. Do outro lado do espectro político, o PSOL também conseguiu dobrar o seu tamanho na Câmara e na Assembleia Legislativa de São Paulo. Fruto também de uma campanha de mobilização feita por novos nomes nas redes sociais, tendência a partir do pleito de 2018 na aposta de cientistas políticos, líderes partidários e candidatos eleitos.

Em 22 de agosto de 1962, foi instituída a lei nº 4.115, que previa o horário eleitoral gratuito de rádio e televisão. A partir de então — apesar das alterações na regulamentação e do período de ditadura militar –, muito se ouviu que um candidato que não tivesse tempo para expor as suas ideias na TV não tinha chances de ser eleito. Outras “verdades absolutas” também foram sendo disseminadas ao longo dos anos. Porém, com as mídias sociais e os orçamentos enxutos, o pleito de 2018 colocou por terra cinco mitos.

Relevância do tempo de TV e rádio

Com a popularização da internet e a consequente massificação das redes sociais, o tempo de exposição de candidatos no horário eleitoral passou a ser coadjuvante na hora de buscar o voto. Por outro lado, os partidos passaram a utilizar muito mais a internet e outras plataformas para divulgar os seus programas.

“Não tenho dúvida de que isso caiu. Os resultados falam por si só, Um candidato com poucos segundos, como o Jair Bolsonaro (PSL) foi o primeiro colocado. Outro, Geraldo Alckmin (PSDB), era latifundiário [no horário político] e ficou raquítico na campanha. Nos estados também observamos esse fenômeno. Parece que finalmente chegou o momento da internet nas eleições”, disse Claudio Couto, cientista político da FGV.

Desta maneira, alguns candidatos conseguiram êxito sem nem sequer aparecer no horário eleitoral, como foi o caso do General Roberto Peternelli (PSL), eleito deputado federal.

“Não tive tempo nenhum, até porque o partido tinha as suas estratégias. A internet foi fundamental. Sem mídias digitais, não conseguiríamos mostrar as nossas atividades. A internet passou a ser mais importante do que ter 30 segundos na televisão, em que você fala o seu nome e mais nada. Pela internet você pode explanar ideias, pode fazer uma transmissão e muitas pessoas vão acompanhar”, explicou o general.

A internet torna a campanha mais barata e tem a capacidade de atingir um público gigante, explica a deputada federal eleita Sâmia Bomfim (PSOL-SP), dona de quase 250 mil votos no último domingo. Com R$ 80 mil em doações, a jovem de 29 anos conseguiu um lugar na Câmara.

“Durante o meu mandato como vereadora [2016], utilizamos as redes sociais, que é um instrumento de sobrevivência para a gente, a fim de dialogar com quem está fora da bolha. Neste processo eleitoral, tendo mais seguidores no Instagram, Facebook, não foi diferente; se não fossem as redes, não teríamos força. Apareci na TV 30 segundos – uma vez em sessão e uma vez de nove em programa eleitoral. Quase ninguém viu”, destacou.

No caso de Bolsonaro, a campanha do PSL declarou “apenas” R$ 240 mil de gastos com programas de rádio e TV no 1º turno — para comparação, em 2014, a candidata Dilma Rousseff (PT), reeleita no segundo turno, gastou durante toda a campanha R$ 70,6 milhões com produção de programas de rádio e TV e jingles.

Estrutura partidária disseminada pelo país

Há alguns anos era impensável um partido considerado nanico eleger uma bancada expressiva. Apenas os gigantes, com suas ramificações pelo país e palanques estaduais, tinham força para colocar os seus candidatos no Congresso. Neste ano, porém, o PSL, que tem uma estrutura mais modesta, foi de um deputado de 2014 para 51 eleitos.

“A força do partido ainda tem importância, mas não resolve. Nessas eleições, PSDB e MDB ficaram raquíticos. Esse tipo de estrutura entra multiplicando o potencial do candidato. Se o potencial é zero, qualquer coisa multiplicada será zero”, concluiu Claudio Couto.

A internet serve para desmistificar as grandes legendas e construir uma relevância online, conforme visão de Juninho, presidente estadual do PSOL em São Paulo, que vê este espaço das redes como fundamental para o partido superar a cláusula de barreira e alcançar o número de dez deputados federais em Brasília.

“O PSOL sempre foi um partido que nunca aceitou fazer grandes alianças, sempre evitou receber financiamento privado de grandes corporações. A gente sempre construiu a campanha de forma muito militante, com engajamento. Obviamente, as redes sociais são uma grande plataforma para isso com o grande alcance. É um campo de possibilidade de diálogo para transmitir as nossas ideias muito maior”, destacou.

Dinheiro do fundo partidário

Nos últimos anos, era comum também se destacar necessidade de fazer altos investimentos para conseguir eleger alguém. Com criatividade e campanhas enxutas, candidatos conquistaram o eleitor em 2018.

“Tem até um meme divertido neste sentido, que mostra uma foto do Henrique Meirelles (MDB) e do Cabo Daciolo (Patriota) com o quanto gastaram. Um teria gastado R$ 43,3 milhões e o outro R$ 738,37 na campanha. Junto estava escrita a pergunta de quem é o melhor economista. É claro que o dinheiro ajuda, mas conta também conta quem tem atenção maior na cobertura da imprensa, na disseminação de informação. Pensa, por exemplo, na mídia na espontânea que o Bolsonaro ganhou com o caso da facada, quanto custaria toda essa exposição de mídia? Será que a campanha dele pode ser considerada tão espartana”, questionou Claudio Couto.

O fundo partidário é utilizado pelos partidos para custear suas atividades e pode também ser empregado nas eleições. O fundo é abastecido com dinheiro público e de multas aplicadas pela Justiça Eleitoral. No Brasil, todo partido registrado tem direito a uma fatia de 5% do fundo, que é repartida igualmente. Os outros 95% são distribuídos a quem tem vaga na Câmara, seguindo a proporção de votos que cada agremiação recebeu na última eleição geral. Em 2017, o PSL de Bolsonaro recebeu R$ 5,32 milhões, segundo dados do TSE. O Patri, de Daciolo, aquinhoou R$ 6,45 milhões, contra quase R$ 80 milhões do MDB de Meirelles.

Máquina

O uso da máquina também era visto sempre como um fator importante na disputa eleitoral. Candidatos à reeleição, ou seja, que já estão no poder e dispõem de estrutura do governo, frequentemente logravam êxito. Neste ano, a história foi um pouco diferente. Os governadores de seis estados falharam na tentativa de se reeleger no primeiro turno. Dos 27 governadores, 20 concorreram, mas apenas sete foram eleitos no primeiro turno e 14 chegaram ao segundo turno. “Até pelo caráter atípico, foi uma eleição de rechaço à política nacional”, analisa Claudio Couto.

Marqueteiros

Outro ponto importante nas eleições recentes eram os marqueteiros. Duda Mendonça e João Santana ficaram conhecidos por coordenar campanhas eleitorais e “vender” os candidatos ao público. Em 2018, os profissionais de comunicação ficaram em segundo plano. “Eu não tinha recurso para contratar pessoal para exercer essa função. Estou fechando as contas, mas investi cerca de R$ 35 mil mais o trabalho voluntário de algumas pessoas, como a minha mulher”, contou o general Roberto Peternelli.

“A grande virtude do Bolsonaro foi ter percebido como o clima político estava, desde as manifestações de 2013. A campanha começou ali de maneira artesanal, percebendo a indignação das pessoas com a classe política e a maré do antipetismo e lulapetismo muito antes de cientistas políticos por aí”, destacou Paulo Kramer, cientista político, com doutorado pelo Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro), e professor licenciado do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília.

“Muito embora ele represente o papel de outsider, ele é um camarada que foi vereador e de 1990 para cá deputado. Esse cara não é outsider. Na política, como a aparência vale mais que a realidade, ele se passou como outsider”, acrescentou, destacando que a campanha teve o próprio Jair, além dos filhos Eduardo, Flávio e Carlos como protagonistas. O PSL não contratou marqueteiros para sua campanha presidencial.

autores: José Edgar de Matos e José Eduardo Martins
fonte: UOL Política

NOTA IFD: Como há tempos toda esta onda do uso da internet e redes sociais nas eleições acompanho aqui no IFDBlog achei relevante deixar este texto guardado aqui como os outros que tenho.

Contudo, como estamos na ERA do BOT e os tempos estão bem sombrios, vou fechar os comentários para evitar discussões acaloradas nos comentários.

Outros textos antigos sobre o assunto basta acompanhar a tag marketing politico aqui no blog.

Espero que entendam 🙂

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