Blitzscaling é coisa do Google? Do Uber? Do Facebook? Que nada, McDonald’s fez isso há 60 anos





Em meados da década de 50, o vendedor de máquinas de milk shake, Ray Kroc, conheceu o McDonald’s, uma lanchonete em São Bernardino, na Califórnia. O que chamou sua atenção, além do nome, foi o sistema revolucionário de produção de sanduíches em que o cliente recebia o pedido em apenas 30 segundos e não em 30 minutos como era praxe nas lanchonetes espalhadas pelo país. Isso quando o pedido era entregue corretamente. Apenas seis anos depois de convencer os irmãos McDonald’s a abrir um negócio de franquias, Kroc já tinha espalhado 130 lojas em 17 estados usando basicamente o financiamento de seus próprios franqueados. No início da década de 70, eram 1.600 lojas em 50 estados americanos e cinco países estrangeiros. “Foi um ‘blitzscaling’ o que ele fez”, diz o professor Newton Cardoso, da FGV. Na tradução, uma ascensão acelerada. Ou para definir ainda melhor, um crescimento muito muito muito rápido.

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Mas na época em que Kroc transformou o negócio McDonalds, ninguém ainda tinha ideia que um dia essa escalada ganharia uma expressão própria. O termo blitzscaling foi criado há poucos anos pelo fundador do Linked In, Reid Hoffman, e um grupo de amigos e tem sido a definição preferida para explicar os negócios ligados ao mundo tecnológico que muito rapidamente conquistaram o mundo como Airbnb, Amazon, Facebook, Google, Linked In, PayPal, Uber, Waze, entre outros. Em pouco tempo, o blitzscaling ganhou a mente e os corações de pequenos empreendedores que sonham em fazer seu negócio crescer rapidamente e logo se tornarem bilionários.

Em entrevista concedida no ano passado para a Harvard Business Review, Hoffman associa muito o conceito às startups de tecnologia, que geralmente são as que tem maior potencial de crescimento acelerado. Mas mais do que isso, elas precisam crescer rápido antes que seus concorrentes o façam ou ainda que a demanda cresça vertiginosamente. Ele cita por exemplo o caso do PayPal, em que foi um dos fundadores também. Nos anos 2000, o número de pagamentos crescia de 2% a 5% por dia e a empresa tinha que acompanhar essa demanda.

A professora da FAAP, Alessandra Fonseca, diz que para se ter um blitzscaling se pressupõe uma alta escalabilidade. “Isso acaba restringindo um pouco. Porque para conseguir esse efeito, precisa de inovação tecnológica e grande investimento em marketing”, diz Alessandra. “Aqui no Brasil não se popularizou ainda porque não tivemos ainda nenhuma empresa reconhecida como unicórnio”. Unicórnio é aquela empresa startup que em pouco tempo começa a faturar US$ 1 bilhão.

Mas o professor do FGV, Newton Cardoso, diz que apesar de estar muito ligado a inovação, esse tipo de crescimento acelerado também pode acontecer fora do mundo tecnológico. Vide o exemplo do McDonald’s. Mas ele concorda que no ramo do software os exemplos são mais comuns. No Brasil, ele cita casos como Nubank e o banco Neon, ambos focados em produtos financeiros oferecidos somente pela internet e aplicativos. O professor Cardoso conta ainda que um dos fundadores do Neon era seu aluno e um dia lhe contou: “professor, preciso contratar 100 pessoas em seis meses”. Este é justamente um dos estágios do blitzscaling que mais do que uma expressão, virou também um conceito.

Pelo modelo de blitzscaling, existem cinco fases de escalada de uma empresa: família, tribo, vila, cidade e nação. Em cada estágio a forma de lidar com as áreas e funções da empresa mudam significativamente. Segundo Cardoso, na primeira fase (até 150 funcionários) é preciso que os colaboradores sejam empreendedores. A partir daí, passam a ser necessários funcionários gestores. Mas o que marca mesmo esse crescimento acelerado é o caos que se instala na empresa. “Toda empresa que cresce rápido sofre com pontos específicos como a falta de comunicação, a desorganização, redundâncias operacionais, etc”, lembra o professor. “Alguns professores acreditam que existam organizações ambidestras, ou seja, que crescem e mantém processos e controles funcionando junto com a liberdade e criatividade. Mas acho meio utópico”.

Hoffman diz na entrevista para a revista de Harvard que quando se está crescendo aceleradamente você tem que triar o que resolver e ir resolvendo ao longo do caminho. “Você se move tão rápido que os problemas de hoje não são os mesmos de amanhã”. Ele dá como exemplo um engenheiro que esteja infeliz e você pensa que precisa desenvolver ferramentas para ajudá-los a serem mais produtivos. Mas o tamanho da equipe vai continuar mudando radicalmente e qualquer ferramenta que seja criada hoje estará obsoleta amanhã. “Em circunstâncias normais esse tipo de problema deve ser prioridade, mas quando você está em blitzscaling, às vezes você tem que deixá-los queimar porque mesmo que você resolva o problema agora, será apenas por um curto período de tempo”.

autor: JOSETTE GOULART
fonte: Estadão PME

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A história do McDonald’s e sua blitzscaling pode ser vista no filme The founder, ou Fome de Poder na tradução em português, disponível na Netflix.

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