Uma entrevista exclusiva com o designer, criador do abadá, Pedrinho da Rocha





A festa de rua mais popular do mundo, o carnaval, está prestes a começar. E em um bate papo tão animado quanto a festa vamos conhecer um pouco mais sobre o designer mais famoso do carnaval baiano, Pedrinho da Rocha. Já no início da nossa conversa, encontrei diversas coincidências entre nossos caminhos profissionais, que passam por inúmeros amigos queridos em comum e a descoberta de que por muito pouco não nos encontramos em alguma grande agência de propaganda do mercado publicitário.

A longa trajetória de Pedrinho começa cheia de nomenclaturas: artista, publicitário, estilista, até ficar conhecido mesmo pelo seu trabalho desenvolvido há mais de 30 anos no carnaval de Salvador, onde é protagonista no campo do design desde 1978. Dentre tantos trabalhos desenvolvidos para a festa, o abadá foi o que consagrou definitivamente a sua fama como designer do carnaval. E o mais curioso é que ele não é um grande folião e nunca gostou de desenhar. Dá pra acreditar?

Pedrinho da Rocha (por ele mesmo)

1- Você diz que acha difícil se definir profissionalmente, mas as pessoas já te definiram como ‘designer do carnaval’. Quando e como começou esta fama de designer da maior festa popular do mundo?

Final dos anos 70 eu já criava algumas coisas para um bloco chamado Traz-os-Montes; era tudo permuta por fantasia, festa e farra… em 1980 fiquei sem emprego – trabalhava numa cozinha na empresa de meu pai – e a única coisa que sabia fazer para ganhar alguma grana, era desenhar. Fui então decorar paredes, muros de escola, etc… E terminei decorando um trio. Daí em diante surgiram outros, depois fiz também palcos e, por fim, as fantasias, na época a mortalha. Como esse bloco, o Traz-os-Montes, foi o berço do Chiclete com Banana e toda aquela revolução sonora e musical do carnaval de Salvador, virei referência para os blocos que surgiram depois, como Pinel, Camaleão, Beijo, Crocodilo… Quando me dei conta virei um carnavalesco.

2- De onde surgiu a ideia de transformar as antigas mortalhas nos abadás que vemos hoje nos blocos de carnaval?

Na ida da Banda Asa de Águia para o Bloco Eva em 1992, Durval Lelys me indicou para fazer a programação visual; os caras do Eva então me perguntaram se eu tinha alguma ideia que ainda não tivesse posto em prática. Falei então de encurtar a mortalha e, naturalmente, eles questionaram que a mortalha era um ícone e ninguém tinha coragem de mexer; propus então que arranjássemos um motivo para tal e sugeri que saíssemos com uma fantasia inspirada na indumentária da capoeira, tendo uma homenagem como pretexto. Eles toparam. No meio do desenvolvimento da ideia, as características do abadá da capoeira foram se perdendo, mas ficou o nome do projeto, que era segredo absoluto. Um dia Durval me falou que queria fazer uma música para a estreia do Asa no Eva e me perguntou se aquela nova fantasia que eu desenvolvia em segredo tinha um nome; disse que o nome do projeto era Abadá. Ele me propôs utilizar esse nome, que era sonoro, e assim foi batizada. No ano seguinte, todos os blocos, mesmo meus clientes mais antigos que nunca tinham topado encurtar a mortalha, adotaram o abadá.

“Evolução da mortalha para o abadá”

3- Depois de tantos carnavais, dá pra eleger um que tenha sido o mais marcante profissionalmente pra você?

Sou sempre muito critico com meu trabalho e raramente fico satisfeito, mas numa sexta-feira de carnaval estava admirando o resultado do “Fubicão” que eu acabava de criar para o Trio de Armandinho, Dodô & Osmar – ele estava estacionado ali pelo Hospital Português, na Barra – quando um popular, que também observava o trio ao meu lado, se virou para mim e falou: “isso é cultura”. Aquela situação me pegou de surpresa porque juntou o fato de eu ter gostado muito do resultado daquele imenso “Fubicão” (e suas rodas e paralamas gigantes) com o fato de um folião desconhecido ter me surpreendido com seu comentário, não só pelo fato de ele sequer saber que estava diante do autor da obra, mas também pelo que ele afirmara. Lógico que não quebrei o encanto daquele encontro e apenas concordei com ele: “É, isso é cultura”

4- Como arranjar inspiração para inovar depois de tantos anos trabalhando na mesma festa?

Eu emulo o meu cliente: o diretor do bloco, o artista… se eu crio algo para o Camaleão ou Central do Carnaval, penso como eles; se crio para o Asa, encarno Durvalino… com Daniela é a mesma coisa: ela me manda um briefing e eu fico imaginando seu discurso sobre o tema. Assim é com o Cheiro e demais clientes. Não sou autoral; bebo da fonte alheia; sou um instrumento para as ideias dos outros. Se eu tentar criar para mim mesmo, não sai nada; preciso do desafio.

5- Você cuida da parte visual de praticamente todos os grandes blocos de carnaval de Salvador. Como é a relação com os artistas? Existe uma proximidade?

Primeiramente, não crio para todos os grandes blocos, até já fiz isso. Hoje, já não tenho como virar noites, rs… Quanto aos artistas, acho que essa proximidade existiu mais no início da carreira deles; mas depois que a agenda aperta, os compromissos impedem esse contato direto, então entra o produtor(a). E alguns artistas para quem trabalhei anos, eu mal conheci; na verdade, sempre fui mais próximo dos empresários. Lógico que tem exceções. Durval, misto de cantor, arquiteto e empreendedor, é uma delas; além de amigo sempre foi um parceiro de ideias.

“Projeto Trio Fubicão para Armandinho Dodô & Osmar”

4- Como arranjar inspiração para inovar depois de tantos anos trabalhando na mesma festa?

Eu emulo o meu cliente: o diretor do bloco, o artista… se eu crio algo para o Camaleão ou Central do Carnaval, penso como eles; se crio para o Asa, encarno Durvalino… com Daniela é a mesma coisa: ela me manda um briefing e eu fico imaginando seu discurso sobre o tema. Assim é com o Cheiro e demais clientes. Não sou autoral; bebo da fonte alheia; sou um instrumento para as ideias dos outros. Se eu tentar criar para mim mesmo, não sai nada; preciso do desafio.

5- Você cuida da parte visual de praticamente todos os grandes blocos de carnaval de Salvador. Como é a relação com os artistas? Existe uma proximidade?

Primeiramente, não crio para todos os grandes blocos, até já fiz isso. Hoje, já não tenho como virar noites, rs… Quanto aos artistas, acho que essa proximidade existiu mais no início da carreira deles; mas depois que a agenda aperta, os compromissos impedem esse contato direto, então entra o produtor(a). E alguns artistas para quem trabalhei anos, eu mal conheci; na verdade, sempre fui mais próximo dos empresários. Lógico que tem exceções. Durval, misto de cantor, arquiteto e empreendedor, é uma delas; além de amigo sempre foi um parceiro de ideias.

Abadás e mortalhas, incluindo o primeirão, do Eva (Mortalhas – Pinel 1996 e Crocodilo 1991 / Abadás – Eva 1993, Camaleão 1999, Beijo 2001, e Nana 2012)

6- O que muda na concepção criativa e na produção com a presença cada vez mais forte da tecnologia?

A tecnologia é uma ferramenta fantástica; acelera tudo, inclusive os prazos. Antes eu levava uma semana para apresentar uma ideia de um outdoor, hoje eu tenho que enviar em uma hora; lógico que isso sacrifica o processo de criação. Sinto também certo excesso de photoshop em tudo; gosto mais do básico, do primário. Prefiro uma boa ideia a um trabalho cheio de efeitos gráficos.

“Esse Trio do Beijo, foi o último que eu mesmo decorei, além de criar o projeto. Logo em seguida, surgiram as tecnologias de plotagem e impressão digital. E eu comecei a repassar os trabalhos para empresas como a Uranus2”

7- O que você considera um reconhecimento do seu trabalho?

Meu compromisso: sou mais trabalhador do que artista.

8- Histórias interessantes que rolam antes, durante e depois da festa, deve haver muitas. Conta uma pra gente.

Certa vez criei uma fantasia para um bloco lá do Piauí. Na época, as artes eram feitas em papel e tinta nanquim preta e por cima colocávamos um overlay indicando as cores.

Como era uma arte no tamanho natural, era praxe indicar as cores só em uma parte da padronagem, o resto, deduzia-se, seguia o padrão das cores indicadas. Passado umas semanas, o produtor do bloco Chiclete com Banana veio me mostrar uma peça impressa no tecido e, para meu espanto, tinham imprimido quase todo o abadá em preto e branco, só colocaram as cores no trecho em que tinha colorido o overlay. Fiquei transtornado e falei que aquela prova estava toda errada e tinha que ser corrigida, aí o produtor me disse que a Micareta já havia acontecido e todas as fantasias haviam saído daquele jeito. Diante da minha frustração, ele completou: “ganhou como o melhor abadá!”.

9- Você inspira muita gente, mas quem te inspira? Alguém em especial?

Muita gente. Quando decorava os trios do Chiclete, me inspirava nas artes de Nildão, que fazia as capas da banda; seu traço é incrível e me influencia até hoje. Também na época, Bel Borba criava mortalhas para o Camaleão e eu ficava fascinado com sua modernidade; sem contar sua técnica de aerógrafo. Na publicidade, bebi muito da fonte de João Silva, para mim, um dos maiores diretores de arte que conheci.

10- O seu nome está muito ligado ao carnaval, mas Pedrinho também se dedica a outros trabalhos?

Trabalho muito para o entretenimento, que não é só carnaval. Vez por outra dou minhas escapadas em outros seguimentos da publicidade. Gosto muito de criar marcas.

autora: Renata Fernandes
fonte: Design Jaeh
dica: Pareta Calderasch (valewww garotooo!)

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