Tendências: quando criar e quando seguir?





Já ouvi gente falando que não gosta de tendências e que quer sempre ser inovador. Já vi gente falando que seguir tendência é um caminho seguro para agradar o cliente. E então? O que fazemos? Inovamos totalmente num projeto ou vivemos de “mais do mesmo”?

Você já sonhou com uma Ferrari? Joga Skyrim no seu Playstation 3? Tem um microondas em casa? Então… nada disso existiria sem design, tendências e inovações! Todas as novidades e facilidades para o mundo criadas através do Design (gráfico, de produto, de animação, de games, de personagem, web, insira aqui qualquer outra área do design que você gosta) simplesmente não existiriam. Se os designers não buscassem inovação o desenvolvimento da sociedade ia parar.

Da Wikipedia:
– “Tendência é o ato de optar por algo, uma escolha entre várias alternativas, ou; uma vontade natural irrefletida no subconsciente, que se transforma em um comportamento com ou sem a devida consciência do indivíduo.
– “Tendência” do latim tendentia :significa tender para, inclinar-se para, ser atraído (a) por algo que chamou a sua atenção.”

Todos os anos a Pantone indica uma cor como tendência para aquele ano. A empresa faz uma análise de indústrias como cinema, entretenimento, moda, esportes e design para realizar a seleção. A cor do ano de 2013, segundo a Pantone, é Esmerald. O que não significa que você deve sair por aí utilizado este tom de laranja em todos os seus projetos. É uma aposta da empresa com base em uma análise no mercado, que pode ou não se tornar de fato uma tendência. Não é uma garantia automática de sucesso.

Um produto é tendência quando, diante de várias opções, ele se torna a probabilidade maior de escolha perante ao público alvo. Quando falamos que algum estilo é tendência, queremos dizer que a aceitação positiva daquilo por um grupo já se dá de maneira natural e inconsciente. Criar algo seguindo uma tendência pré-estabelecida é manter-se no caminho seguro para a aceitação.

A pessoa que segue uma tendência, anda por um caminho já explorado.

Porém, tendência não é algo ruim. Se estudarmos as tendências a fundo, notaremos que ela revela pensamentos, anseios e desejos em comum da sociedade. Muitas vezes a tendência não diz o que a pessoa que a segue é, mas sim o que ela quer parecer. E isso não é algo necessariamente prejudicial. Ajuda na sua auto-confiança. Ajuda a compor a sua imagem. Faz com que você se encaixe a um determinado grupo, seja identificado como pertencente de uma determinada tribo. Quando um designer ignora uma tendência na hora de criar uma marca nova, corre um sério risco do seu produto ser marginalizado. De não ser identificado pelo seu público alvo.

O problema surge quando designers se acomodam na sua margem de segurança e param de inovar. A coisa fica estagnada. Não vai pra lado nenhum. E fica chato. Mesmice.

Nós, como designers, devemos saber a hora certa de criar algo totalmente novo e a de seguir a maré. E, mesmo quando optamos por seguir a maré, nunca podemos nos anular, deixar de lado nossas características pessoais. Por mais que um produto de uma marca de roupas, por exemplo, siga uma tendência, ele ainda carrega uma série de características únicas que compõe aquela marca. E, se não fizer isso, perderá a sua identidade e aquilo que o torna único.

Não é todo momento que devemos criar uma tendência.

Precisa de tempo, confiança, consolidação. Precisa ter um público fiel e com a cabeça aberta para aceitar essa mudança. Veja o exemplo da GAP: em 2010 tentaram mudar o logo. A rejeição foi tão grande que voltaram para o logo antigo. É um exemplo de público alvo que não estava pronto para este tipo de mudança (sem entrar nos méritos se a tentativa de um novo logo foi boa ou não).

Pensemos em uma marca com força de mercado, com credibilidade o suficiente para arriscar. A Nike. Ela pode arriscar. Tem um público fiel, que não vai deixar de achar a Nike uma das melhores empresas de material esportivo do mundo por causa de uma tentativa falha. A mesma coisa para a GAP. Não deixou de ser uma marca cobiçada por causa da sua tentativa falha com o seu logotipo. São marcas que podem arriscar, falhar e criar tendências, como já fizeram. Alguém lembra das chuteiras tortas (aquelas que amarram do lado) que a Nike inventou? Depois, uma enxurrada de empresas de chuteira seguiram essa tendência e fizeram seus produtos exatamente iguais ao da Nike.

O que a Nike fez? Primeiro, estudou qual era a inovação que os atletas precisavam. Notou, através destes estudos, que uma chuteira que amarrasse em outra posição poderia melhorar a área de contato do pé do jogador com a bola, criando mais precisão na hora do chute. Voltou para o QG, avaliou os resultados e criou a chuteira torta. Com sensibilidade e uma análise profunda do seu público alvo, a Nike criou uma tendência que durou muito tempo. E não fez isso só com essa parte da chuteira! Criou novos cravos, sapatilhas e diversos materiais que foram copiados por outras marcas buscando a aceitação que a Nike tem.

Agora, olhemos para o exemplo do Ronaldo ou do Tiger Woods. Ambos se envolveram em escândalos de traição de suas mulheres. Muitas empresas deixaram de patrocinar os dois com medo que isso afetasse a sua visibilidade. A Nike não. E não a afetou em nada! Continuam entre os melhores de todos os tempos da modalidade que jogam. São pessoas influentes, que podem criar, e criam tendências. Muita gente imitou o cabelo de cascão do Ronaldo na final a copa de 2002 (horrível, por sinal). Aliás, a marca Ronaldo tem um poder de influência e de formar opiniões fortíssima! Quantas pessoas não vão comprar uma chuteira só porque o Ronaldo usou? Ou uma camisa? A Nike sabe disso. Sabe que o Ronaldo tem um carisma e um poder de criar tendências fantástico, por isso continua a patrociná-lo mesmo com escândalos envolvendo seu peso ou sua vida pessoal.

Nem todo mundo é gerador de tendência.

Nem todo mundo deve ser gerador de tendência (afinal a tendência só existe porque tem gente pra seguir). E isso é necessário! Já parou pra pensar se todos os designers do mundo fossem geradores, e não seguidores de tendência? Simplesmente não ia existir tendência nenhuma. Todo caso ia parecer isolado.

Devemos estudar muito. Dedicar muito tempo a aprender. Se tentarmos criar uma tendência sem estudo e sensibilidade, simplesmente daremos chutes no escuro, esperando uma hora acertar alguma coisa. Criar uma tendência necessita um poder de percepção da sociedade absurdo, para ter o timing correto de dar ao público alvo a resposta ou a inovação que eles procuravam. E isso pode durar uma vida ou uma semana. Tendências se transformam, evoluem ou simplesmente passam. Um exemplo banal são cortes de cabelos que existiam em décadas passadas e hoje parecem cafonas. Assista qualquer propaganda da década de 80 ou 90 e repare. Aquilo era tendência na época, mas passou. Perdeu o interesse. As pessoas deixaram de aderir.

Algumas outras tendências surgiram como representação de um estilo de vida, uma filosofia. Muitas destas não foram criadas intencionalmente. Ainda assim marcaram época. Fizeram história. O Led Zeppelin não pensou “vou influenciar qualquer outra banda de rock que vier depois de mim” nem o Ozzy pensou “vou criar o Heavy Metal”. Eles estudaram música. Aprenderam. E as tendências que criaram foi a união de um estilo pessoal, anos de experiência, uma sociedade com novos questionamentos buscando novas identidades e um carisma acima da média.

Design x Arte

Eu sei que vamos dormir pensando “ora, somos designers! Nosso trabalho é ver o que ninguém viu, criar tendências!”. Devemos ter consciência que nosso trabalho, como designer, é solucionar um problema que identificamos através de um briefing e passar uma mensagem que, de uma forma ou de outra, responda os questionamentos do nosso público alvo. É demonstrar, através de imagens, a sensação que o nosso cliente quer transmitir. É um trabalho maravilhoso porque nos da a oportunidade de ver o mundo por olhos que nunca pensamos em ver. E é isso o que diferencia o Design da Arte. Enquanto o Design surge para solucionar e responder, a Arte tem a função de criar questionamentos e expressar o pensamento do artista. A Arte é pessoal e permite diversas interpretações, embora revele anseios de transformações de uma sociedade. O Design é funcional, é objetivo e não abre margens para múltiplas interpretações.

Mas eu não respondi a pergunta “Quando inovar e quando seguir?”. Bom, ninguém sabe quando. E quem disser que sabe, provavelmente está mentindo. Você só perceberá que sua idéia é de fato inovadora depois que colocar ela pra funcionar. O que precisamos é de um olhar crítico para o mundo, saber quais são os anseios da população e as dúvidas da sociedade. Precisamos saber os “por ques” antes de pensarmos nas respostas. E isso só surge com muita curiosidade, aprendizagem e questionamento.

O que eu concluo? Que novas tendências só surgem com novos questionamentos.

autor: Leandro Lima
fonte: http://blog.popupdesign.com.br

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