Sede por Design nas tecnologias do cotidiano

A tecnologia está se tornando cada vez mais íntima.

Cada vez mais aceleradamente, uma nova tecnologia entra em nosso cotidiano. Num primeiro momento, é um objeto sem significado. Logo, alguém descobre uma utilidade e sai por aí dizendo que ninguém pode viver sem isso. Com o tempo, todos seus amigos e familiares estão usando e você se vê obrigado a usar também. A tecnologia parece que cria sua própria necessidade.

Por outro lado, não surge do nada. Alguém teve a idéia. Alguém pensou que seria útil. Normalmente, as idéias de novas tecnologias advém da realização de limitações das tecnologias existentes. A necessidade estava lá, só ninguém sabia como suprí-la.

Veja o caso do celular, por exemplo. Quem é que precisava de um celular no século XIX? Nenhuma decisão era tomada de última hora. Os compromissos eram agendados com antecedência e seu cumprimento era sagrado. Falou tá falado. Além disso, as pessoas com quem você precisava falar estavam sempre por perto.

Ao longo do século XX, isso foi mudando. O ritmo de vida foi ficando cada vez mais rápido, a quantidade de decisões maior, os contatos pessoais cada vez maiores e mais dispersos geograficamente. Como viver sem celular numa sociedade assim? Difícil, mas mais difícil ainda com ele. Agora, é preciso lidar com outros problemas.

O primeiro celular comercial foi produzido pela Motorola em 1983. Era grande, pesado e feio. Embora a empresa tivesse gerado conceitos muito mais avançados em design, o tijolão era mais barato para produzir.

E o mico de sair andando na rua falando com um treco estranho que ninguém sabia o que era? Inicialmente, só os homens de negócio pagavam o mico e o preço do aparelho, que era salgado. Com o tempo, mais gente foi entrando na rede e com propósitos outros além de trabalho. O preço barateou, mas o mico continuava: o aparelho continuava deselegante.

A Motorola demorou mais de 20 anos para perceber que o custo e as funcionalidades de um aparelho celular era o de menos para a maioria das pessoas. O celular é ao mesmo tempo símbolo de status social e ferramenta de ascenção. As pessoas aceitam estar disponíveis o tempo todo porque não querem perder suas posições. O modelo Razr, comercializado a partir de 2004, vendeu mais de 120 milhões de unidades e se tornou o celular mais vendido de todos os tempos, embora fosse mais caro e mais difícil de usar que seus concorrentes.

O Razr foi o mais cobiçado até a chegada do iPhone. Ao invés de competir na espessura, forma arrojada ou cores berrantes, a Apple investiu em usabilidade. Os telefones da Nokia sempre foram reconhecidos como os mais fáceis de usar, mas o iPhone não é só fácil. É divertido, é engajante. Parece até um game.

Mas o iPhone tem uma limitação: ele não é muito customizável. Não dá pra trocar de case como os celulares da Nokia, nem colocar penduricalhos como nos aparelhos da japonesa DoCoMo. Ao contrário do preconceito sobre customização, as pessoas não customizam com o objetivo de chamar a atenção para sua diferença, mas sim para lembrar-se a si mesmas. Embora eventualmente seja usado em público, o celular é um objeto íntimo. Ele faz parte da vida afetiva das pessoas.

Os produtos Apple definitivamente não são feitos para combinar com o o estilo do consumidor. Eles tem um estilo próprio. Ao invés do consumidor colocar um pouco de sua personalidade no produto, o produto é que introduz seus valores na personalidade do consumidor.

O iPod, por exemplo, não sintoniza rádio FM. Você deve escutar o que você quer, não o que uma emissora de rádio quer. E deve dar pontos, numa escala de 1 a 5 estrelas, para gerar listas com suas músicas favoritas. Na verdade, é capaz até de reconhecer quais você mais escuta, para que você escute mais e mais do mesmo. Se você quiser saber o que o colega ao lado está ouvindo, só pedindo um fone de ouvido. Não tem caixa de som e nem conexão para transferência com outros iPods.

O iPod modifica não só a forma como consumimos música, mas também como nos relacionamos com amigos e grupos sociais. Você nem precisa ter um iPod para ser influenciado por ele. É um símbolo que não age sozinho, mas que delinea nossas interações. Isto é Design de Interação.

As empresas que perceberam a relação mútua entre tecnologia e necessidade, entre usuário e contexto social, entre racionalidade e afetividade estão investindo nesse tipo de design como peça-chave de sua estratégia de mercado.

O consumidor está sedento por Design. Não aguenta mais bugigangas que não funcionam e deixam sua vida cada vez mais complicada. Se temos que usar tantas novas tecnologias em nosso cotidiano, que sejam fáceis de usar, elegantes e divertidas. O mercado de tecnologia precisa de mais Design, o mercado precisa de Design de Interação.

autor: Frederick van Amstel
fonte: http://www.usabilidoido.com.br

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