O mistério das cores





Não passa uma semana sequer sem que eu receba e-mails com perguntas sobre cores, desde consultas sobre a aplicação em logotipos, uso em cartazes e até na decoração da casa. Mas falar de cores é muito mais complexo do que parece.

Existem várias teorias, estudos e conceitos que divergem. O tema “cores” faz parte de todas as disciplinas que leciono. Sempre falo sobre essa diversidade no mundo da escolha.
Abordo cinco modos de usá-las, cinco associações cromáticas, que divergem em alguns pontos, mas que estão corretas sob o ponto de vista de estudo e de pesquisa. São elas:

• associação psicológica;
• associação fisiológica;
• associação sinestésica;
• associação afetiva;
• associação matéria.

Também poderíamos analisar e aplicar as cores levando em conta os estudos da psicodinâmica e da cromoterapia; os estudos matemáticos, os esotéricos e os astrológicos, baseados na tradição celta, indígena ou no nosso folclore; sem esquecer a história de cada sociedade — abordo isso em associação afetiva. Um estudo sobre o qual sempre me questionam é o feng shui.

Todos estão certos, desde que baseados em conceitos e pesquisas sólidas. Todas as possibilidades acima possuem uma relação correta sobre a escolha, uso e aplicação de cores.

Somado a isso, não podemos esquecer nunca da relação pessoal que cada um possui com as cores. Exemplo: no caso de um projeto ter um direcionamento mais pessoal, diferindo-o do que é feito para um grande nicho de mercado.

As diferenças entre o que cada cor causa em cada um dos seus métodos de uso são grandes. E é por isso que digo sempre que criar uma regra única para o uso das cores configura um erro grave.

Cores podem ser “boas ou ruins” dependendo da associação em que foi baseada. O erro está no método de escolha e não na escolha. Deve-se definir qual o tipo de associação, de pesquisa cromática que é o mais adequado para o projeto em questão, seja ele de criação de logotipo, cartaz ou decoração da casa. O amarelo, por exemplo, pode ser uma cor positiva dentro da psicologia cromática, mas é negativa na relação fisiológica.

Isso tudo ainda se agrava quando temos de juntar a associação cromática com a superfície em que é aplicada. Será papel (CMYK) ou vídeo (RGB)? Ainda usando o amarelo como exemplo: sua variação em intensidade de luz — vale sempre lembrar que cor é luz — é enorme se percebermos como o mesmo amarelo pode refletir diferente — cor é luz refletida — em um papel, uma parede, um tecido e, principalmente, como difere em uma superfície que já reflete luz, como uma tela de vídeo.

Falando em iluminação, as diferenças de uso e aplicação só aumentam. O tipo de luz que temos em um ambiente influencia diretamente no modo como vemos cada cor. Se um projeto de uso de cor for para cenografia, o figurino de um filme ou teatro tudo fica mais complexo porque a iluminação criada para cada cena, cada ato, interferirá diretamente na cor absorvida pelo nosso cérebro.

Portanto, não existe conceito único, regra única quando falamos de cor.

Na verdade acredito, sim, em uma regra básica, única, quando temos de escolher cores: sinta-as antes de mais nada; para mim, a sinestesia é sempre um bom começo.

Termino com uma frase de Vincent van Gogh sobre cores: “Normalmente, meu espírito está inteiramente tomado pelas leis das cores. Ah, se elas nos tivessem sido ensinadas em nossa juventude.”

Um filme: “Gabbeh” — produção iraniana de 1996, com direção de Mohsen Makhmalbaf — não só porque gosto muito de cinema iraniano. Mas este filme é, com certeza, obrigatório para qualquer um que queira entender ou aprender mais sobre a linguagem das cores e suas simbologias.

Uma música: “Volta” — de Manacéia da Portela cantada por Marisa Monte e pela Velha Guarda da Portela — o que tem a ver com cor? Diretamente nada, mas realmente cantei essa música quase o tempo todo em que escrevi este artigo. Sinestesicamente, talvez ela tenha a cor do dia de hoje, de uma lembrança… ou de qualquer outro momento azul. (Esta música faz parte do documentário sobre a Velha Guarda da Portela — Mistério do Samba)

autora: Márcia Okida
fonte: http://www.zupi.com.br

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