O HTML5 e o novo boom de empreendedorismo digital

A web perdeu o vigor. Apesar da evolução assombrosa que os sites mais poderosos e inteligentes da última década representam em relação às páginas estáticas dos anos 1990, as novas tecnologias corromperam o frescor e a fluidez da rede. Conseguir que os sites funcionassem em todos os navegadores exigia dos desenvolvedores muito trabalho de “copiar e colar”. O áudio e o vídeo, a animação e outros elementos multimídia começaram a ser criados com aplicativos (apps) proprietários (como os vendidos na AppStore da Apple) pela simples razão de que a programação básica em HTML (a linguagem-padrão que deu vida à web) ficou atrasada no que se refere a funcionalidades. Essa deficiência forçou os usuários a baixar plug-ins para que seus navegadores pudessem interpretar a informação e os sites se tornaram lentos e complicados. E, se essa web já é incômoda em um microcomputador, tornou-se totalmente inviável em dispositivos móveis.

Você conhece esse problema, não? Pelo menos, deve senti-lo, talvez sem racionalizar sobre ele. Mas a história por trás disso é muito mais interessante. Foi contada na HSM Management nº 86, em um Dossiê inteiramente dedicado à web semântica, e eu a reproduzo parcialmente após o jump, porque é fundamental para entender a nova fronteira da internet, o HTML5, que vem sendo mencionado como o santo graal pelos maiores especialistas do momento, entre eles o RogerMcNamee. E parece ser mesmo. Aguardem um novo boom de empreendedores na web, como o que vivemos no final dos anos 1990.

Foi assim: no final dos anos 1980, quando Tim Berners-Lee teve a ideia de uma gigante rede de documentos entrelaçados, precisava de um sistema para classificar e vincular as páginas. Como não havia uma linguagem com essa capacidade, ele criou a HyperText Markup Language, HTML para os íntimos, um sistema de rótulos para estruturar documentos, apresentá-los corretamente e conectá-los uns aos outros. Com o tempo, o HTML se tornou a língua-mãe da web. Aí, no final da década de 1990, durante o boom da web, Berners-Lee advertiu que o HTML não daria conta de toda a complexidade que estava surgindo na rede. Como dirigente do World Wide Web Consortium (W3C), organização que promove os padrões da internet, recomendou o desenvolvimento de uma nova linguagem de programação, capaz de gerir a transferência de dados entre os sites e os computadores dos usuários de maneira mais eficiente e o W3C decidiu então deixar de atualizar o HTML. Surgiu o XHTML. No primeiro momento, os gigantes da internet (entre eles o Google e a Microsoft) apoiaram a estratégia, mas logo reconsideraram, porque o XHTML não era totalmente compatível com o que tinha sido feito no velho padrão e, pior, era intolerante a falhas.

Em 2004, durante um evento do W3C em San José, Califórnia, na sede da Adobe Systems, o desacordo sobre o XHTML começou a fic ar evidente e um novo movimento começou a tomar forma. O programador Ian Hickson propôs que o W3C e seus colegas de indústria unissem forças para renovar o HTML, deixando de lado o XHTML e, de 19 pessoas, 11 (que representavam a Microsoft, a Apple e a Mozilla, todas fabricantes de navegadores) respaldaram a proposta. Dessa dissidência nasceu o HTML5, batizado com esse nome por ser, essencialmente, a quinta grande versão do dicionário HTML.

O W3C planeja ratificar oficialmente o HTML5 nos próximos dois anos. De qualquer maneira, trata-se apenas de uma questão técnica. O ponto-chave é que o desenvolvimento da nova versão está nas mãos de empresas que precisam responder aos clientes. Esse trabalho é a maior e mais consciente atualização feita na programação da web em sua história. E o que tem o HTML 5?

• Para simplificar o funcionamento da web, essa linguagem basicamente transforma sites em programas de computador (aplicativos). Por exemplo, entre as novas funcionalidades do dicionário de programação dele inclui-se o aplicativo Canvas, elemento que permite a um programador da web criar gráficos dinâmicos para jogos ou animações (algo que antes tinha de ser feito com programas complementares). O dicionário também facilita a etiquetagem de áudio e vídeo, o que tornará muito mais eficiente a maneira como a web maneja os elementos multimídia.

• O HTML 5 está pegando o melhor do funcionamento da web e transformando em padrão. O Gmail, do Google, por exemplo, permite que o usuário arraste um arquivo armazenado no computador até a janela do navegador para anexá-lo a uma mensagem de correio eletrônico, não permite? Pois essa capacidade virá naturalmente na quinta versão do HTML, o que significa que levar um elemento de um lado para outro será algo básico da funcionalidade dos sites.

• Ele ampliará a capacidade de armazenamento dos navegadores para 5 MB por domínio web, mil vezes maior do que a capacidade atual. Com isso, as pessoas poderão usar as funções das páginas de web até quando não estiverem conectadas à internet. O site, então, se encarregará de sincronizar o trabalho feito. Enquanto a pessoa estiver online, essa função também será uma grande vantagem. Se o navegador for capaz de armazenar tanta informação, não terá de atualizar constantemente a página em que se está trabalhando. E tudo funcionará mais rápido, uma vez que a “conversa” constante entre os computadores e as bases de dados deixará de interromper os canais que transmitem a informação.

• E a principal vantagem do HTML 5: a compatibilidade da web com os dispositivos móveis. Parte do crédito por esse avanço deve ser dado à Apple, um dos grandes players da internet, ainda que sua porção do mercado de navegadores seja pequena.O WebKit, que é o sistema de navegação móvel dominante, é compatível com o HTML 5 e, assim, os desenvolvedores da web podem usá-lo para criar versões móveis de sites que possam ser vistos em múltiplos dispositivos.

O HTML 5 não mudará a web da noite para o dia. O caminho ainda é longo. Apesar de os fabricantes de navegadores concordarem em vários pontos, ainda discutem, por exemplo, que padrões de vídeo apoiar. Também levará tempo para que os desenvolvedores consigam dar um uso significativo à tecnologia; antes, vão querer se assegurar de que a maioria dos usuários usa navegadores compatíveis com o HTML 5. Cedo ou tarde, porém, mais e mais sites vão se tornar inteligentes, serão compatíveis com computadores, telefones e tablets. Aos poucos, as pessoas deixarão de baixar aplicativos. Um único programa, o navegador, oferecerá uma experiência única e satisfatória em todos os equipamentos. (Mas atenção: isso não quer dizer que os aplicativos vão desaparecer (para algumas empresas, ainda será bom negócio adaptar conteúdo segundo plataformas específicas para construir fidelidade e cobrar mais.)

Mas, com sua capacidade de simplificar, o HTML 5 aporta uma boa razão para acreditar que a web continuará sendo a principal plataforma dos novos serviços, enquanto o mundo dos aplicativos permanecerá em segundo plano. E isso é importante, porque a saúde da rede é vital para a criatividade e o empreendedorismo.

autora: Adriana Salles Gomes
fonte: http://www.hsm.com.br

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