Havia um Miran no Meio do Caminho





E foi assim que o design brasileiro começou a ganhar espaço e reconhecimento. Um dos mais renomados designers brasileiros, Miran fez toda a diferença no cenário nacional e internacional. Além de revelar ao mundo seu impressionante talento e seu traço inconfundível, Miran usou seu prestígio pessoal para alavancar o design verde-amarelo no exterior e para trazer ao Brasil os ares das grandes criações internacionais. Suas ações e seus trabalhos representaram, a um só tempo, pedra fundamental e alavanca, renovação e divulgação, sensibilidade e arte.

Falar a respeito de Oswaldo de Miranda – mais conhecido como Miran – e sobre a importância de seu trabalho para o cenário nacional, é sempre uma tarefa prazerosa e instigante. Seja como designer gráfico, ilustrador ou cartunista, este profissional representa um inegável diferencial criativo e uma força motriz do design no Brasil.

Durante sua longa carreira, iniciada como calígrafo, a palavra talento sempre esteve associada ao seu nome. Foi assim no suplemento cultural O Raposa, editado em Curitiba. Foi assim com a revista Gráfica, cujo primeiro número foi editado em 1983. Foi assim em tudo o que fez. Em todas as suas realizações, Miran mostrou porque seu nome figura na galeria dos melhores do design brasileiro.

Para descobrir como foi forjado o traço do genial Miran, é preciso voltar à sua infância em Paranaguá, cidade do litoral do Paraná. Ainda menino, ele foi ajudante no cartório de um tio. Naquela época, Miran era o responsável pela transcrição dos livros de registro e, para isso, era de extrema importância ter uma caligrafia impecável.

No final dos anos 60, aos 16 anos, mudou-se para Curitiba. Além de estudar, foi trabalhar como aprendiz em uma agência de publicidade, iniciando seu contato direto com as artes gráficas. A prática e o esmero com os livros de cartório talvez tenham lhe facilitado a tarefa de marcação dos layouts, sistema comum num período em que os títulos dos layouts nas agências de publicidade eram desenhados à mão.

O talento para a ilustração e o desenho de letras deu-lhe a oportunidade de trabalhar na agência de publicidade S.J.Mello, onde foi assistente de Zeno Otto, um dos pioneiros na direção de arte do Paraná. Foi ali que Miram despertou seu interesse para as artes gráficas e iniciou sua trajetória profissional. Mais tarde, já como diretor de arte, trabalhou na Associados Propaganda, uma das agências de publicidade mais importantes da época.

Naquele período, os negócios de publicidade começavam a aumentar no Paraná em decorrência da ascensão de algumas empresas com sede regional. Aumentavam também a busca e a valorização de profissionais talentosos como Desidério Pansera e Rettamozzo, vindos do Rio Grande do Sul para trabalhar em Curitiba.

Dentro deste ambiente favorável surgiu a PAZ Propaganda, um laboratório para Miran e para os diversos profissionais que por lá passaram. Naquele ambiente Miran pode trabalhar novamente com o Zeno Otto e com outros personagens históricos da publicidade paranaense como Paulo Vítola, Sérgio Mercer, Ernani Buchmann, Werneck, Solda e Paulo Leminski, entre outros. Naquele período, o trabalho de Miran já revelava algumas de suas características principais: a utilização de ilustrações em preto e branco e a valorização da tipografia.

Foi o contato com publicações norte-americanas e européias que despertou o interesse de Miran pelo design editorial e pela tipografia, especialidades comuns em outros países, mas que ainda não tinham encontrado a devida expressão no Brasil. Em Curitiba, ainda não havia espaço especificamente para a figura do designer. O que existia era o trabalho de diretores de arte em agências de publicidade que, por sua vez, aglutinavam todo tipo de veia criativa: artistas plásticos, músicos e poetas.

Um bom exemplo é o do poeta, compositor e escritor Paulo Leminski, que trabalhou como redator. Não é de graça que muitos afirmam que aquela foi uma das mais importantes fases criativas da produção publicitária e das artes gráficas no sul do Brasil. Em 1977, já com o trabalho reconhecido em Curitiba, Miran monta seu próprio estúdio voltado para projetos de design.

O RAPOSA

Quase coincidindo com a criação de seu estúdio próprio, em 1976 surgiu O Raposa, um suplemento cultural encartado no jornal Diário do Paraná. O Raposa era uma iniciativa que aglutinava a efervescência cultural e intelectual curitibana. Com caráter estritamente cultural, representava um espaço no qual escritores, poetas, ilustradores e cartunistas podiam colocar suas idéias de forma descomprometida e com humor.

Logo no início, Miran bancou os custos de produção do jornal. Porém, em pouco tempo o encarte se tornou uma referência para o meio cultural de Curitiba e, a pedido da direção do jornal, tornou-se um caderno. Já em 1977, O Raposa ganhou o primeiro prêmio do Clube de Criação de São Paulo. E, em 1978, recebeu seu primeiro prêmio internacional com a página Edgard Alan Poe. De 1978 a 1982, O Raposa foi editado pela Fundação Cultural de Curitiba.

Várias páginas de O Raposa deram a Miran boa parte de sua premiação e reconhecimento internacionais. Por dois anos seguidos, foi premiado pelo Type Director Club, a associação que reunia alguns dos mais importantes designers dos Estados Unidos como Herb Lubalin, Milton Glaser, Saul Bass e Ivan Chermaieff. O trabalho de Miran despertou especial interesse em Herb Lubalin que fazia parte do júri do Type Directors Club e era editor do jornal HL&C, destinado à tipografia.

Em 1979, Miran pode conhecer pessoalmente Lubalin, tendo encontrado algumas vezes com ele, em Nova Iorque, até pouco antes do falecimento do designer norte-americano. Em 1980, Lubalin publicou um artigo no HL&C enaltecendo o trabalho gráfico de Miran e classificando-o como um dos melhores designers gráficos da época. O contato com Lubalin colaborou para que Miran pudesse conhecer também outros importantes designers norte-americanos como Saul Bass e Milton Glaser.

A REVISTA GRÁFICA

Paralelamente à edição de O Raposa, Miran organizou em Curitiba uma grande exposição de trabalhos de design chamada “GRAFIA”. A exposição contou com trabalhos de diversos designers, ilustradores e calígrafos de renome internacional. Isso foi possível porque, já no início dos anos de 1980, Miran contava com grande prestígio internacional devido aos prêmios recebidos em diversos concursos e à participação em diversas publicações internacionais. Além disso, seu trabalho contava com o aval do já citado Herb Lubalin, considerado um dos mais importantes designers da época.

O grande número de trabalhos de altíssima qualidade dificultou a montagem da exposição, que tinha um espaço limitado. Mas o sucesso revelou muito a Miran sobre o mercado do design. Ele descobriu, por exemplo, que as dificuldades impostas à importação de livros e periódicos dificultava o acesso a importantes publicações de design internacional. Designers, ilustradores, calígrafos e tipógrafos celebrados em vários cantos do mundo tinham seus trabalhos desconhecidos no Brasil.

Ao analisar o mercado, Miran também constatou que o trabalho de design gráfico realizado no Brasil não conhecido no exterior, apesar de sua excelente qualidade. E foi como resultado das experiências e constatações de Miran que, em 1983, ele publicou o primeiro número da revista Gráfica. A publicação surgiu, inicialmente, quase como uma forma de documentar os trabalhos da Mostra Grafia, já que os participantes solicitavam que lhes fosse enviado um catálogo como forma de registro do que havia sido exposto.

Os números iniciais da Gráfica foram editados exclusivamente por Miran. A partir da 17ª edição, ingressam na sociedade Carlos Ferreira, o Carlão, e Orestes Woestenhoff que ficam até o ano de 1994, quando a revista estava no número 45. Naquele período a Gráfica passou a ser distribuída na Europa pela suíça Rotovision, sendo a única publicação não européia da maior editora de livros de design do mundo. A partir da edição número 46, a Gráfica voltou a ter o controle de Miran e contou com a parceria da editora Escala.

Ao todo foram 52 edições que demonstraram a capacidade inigualável de Miran para identificar o que havia de melhor no mercado das artes gráficas no Brasil e no mundo. O desfilar de artistas gráficos, designers, ilustradores, calígrafos, tipógrafos e fotógrafos que passaram pela revista revelou que a Gráfica foi uma ponte cultural entre as artes gráficas do Brasil e do exterior. Uma via de mão dupla carregada de arte e talento.

OS CARTUNS

O humor refinado de Miran, amplamente acompanhado pelo público leitor do Jornal do Brasil que publicou suas primeiras tirinhas, já havia sido revelado muitos anos antes. Na adolescência, quando ainda vivia em Paranaguá e trabalhava como assistente no cartório do tio, Miran se deliciava com as correções que tinha de fazer em documentos que apresentavam frases incorretas. Como os documentos não podiam ser rasurados, tinham os textos devidamente “consertados” com a palavra “digo” e, na seqüência, recebiam a explicação adequada. Naqueles momentos, apesar da seriedade do trabalho, Miran conseguia escrever textos permeados de um humor muito sutil.

Os cartuns de Miran refletem toda a energia e o vigor de seu trabalho e demonstram a característica que o acompanha mesmo em seus trabalhos tipográficos, caligráficos ou de concepção gráfica. Tratam-se de intensas áreas de preto e branco interagindo. Certa vez alguém disse que, se pudesse representar o trabalho de Miran em forma de música, esta seria um jazz, tal o dinamismo apresentado nas áreas de contraste. Essa característica aparece sempre, em todos os trabalhos do designer.

Os cartuns de Miran foram publicados no final dos anos de 1970, no Jornal do Brasil, junto com outros ilustres cartunistas como Henfil, Zirado e Jaguar. Além do Jornal do Brasil, Miran teve seus cartuns publicados no Pasquim, Folhetim, Zero Hora, Playboy e também na revista alemã Pardon. Outra característica de Miran era a falta de vínculo de suas ilustrações com as questões políticas, algo pouco comum no Brasil. Naquele período, com a ditadura militar cerceando a liberdade de expressão em todos os níveis, muitas vezes os cartuns faziam o papel de comunicar nas “entrelinhas”.

Miran escolhia temas simples, porém ricos em detalhes. Essas características acabaram por render ao designer um prêmio concedido pela Society of Ilustrator of New York, a mais importante associação de ilustradores do mundo. Apesar de descomprometido com questões políticas, Miran foi intimado pelo DOI/CODI, o órgão de repressão militar do período da ditadura, época em que o Jornal do Brasil publicava seus cartuns. Isso ocorreu em função do “caráter subversivo” que os organismos de inteligência diziam identificar nas entrelinhas de seu personagem intitulado “o Essenfelder”, uma brincadeira ao estilo “um pouco frio” de um curitibano.

O TRIBUTO

Na atualidade, a atividade do design apresenta uma grande evolução. Primeiro, do ponto de vista tecnológico, em função das inúmeras ferramentas digitais disponíveis e da tremenda evolução das pesquisas de materiais. Também houve um grande crescimento na capacidade e na forma de ensinar design no Brasil. Por fim, o exercício profissional, em si, tem encontrado cada vez mais espaço e respaldo.

Apesar de tudo, ainda falta muito para que o Brasil se equipare aos países desenvolvidos que vêem o design como algo essencial para o reconhecimento e a manutenção de um produto ou de uma marca. Mas é preciso reconhecer que o atual status ocupado pelo design no Brasil deve muito ao trabalho extraordinário de Oswaldo de Miranda, o Miran, visionário que conquistou espaços e abriu caminhos.

autor: Ericson Straub
fonte: ABC Design

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