A linha reta não sonha





A ascensão do design no Brasil é confirmada com a conquista de sete Leões em Cannes, na França. Confira os motivos

A frase do título, de Oscar Niemeyer, não foi dita hoje, mas pode refletir o atual momento do design no país. A criatividade intrínseca ao brasileiro somou-se às ações inteligentes da Associação Brasileira de Empresas de Design (Abedesign) e resultou em consagração e evolução do setor. Muito a comunicação tem a comemorar: mais do que os sete Leões emplacados em Cannes, no ano passado, o segmento ganhou mais espaço para mostrar seu valor, projetar-se no país e no mundo, promover o intercâmbio de ideias e experiências, discutir suas questões e necessidades.

O presidente da Abedesign, Luciano Deos, na ocasião disse que a premiação seria uma alavanca para o país avançar no mercado internacional, e estava certo. Design, hoje, é um dos canais de expressão mais essenciais da sociedade moderna e, por isso mesmo, extremamente valorizado. Para Deos, design e evolução do homem caminham juntos, uma vez que a história da civilização pode ser contada pela história do design. “Seu papel é o de traduzir e criar algo que dê sentido aos desejos do homem; não tem apenas um papel estético, mas sim um papel social, de união”.

Apesar do momento feliz que o segmento vive, entretanto, o Brasil ainda não solucionou seu maior desafio: a falta de dados concretos e organizados, números que mostrem o quanto o design está se desenvolvendo, qual a porcentagem de crescimento ou até mesmo se há, efetivamente, esta valorização. São informações cruciais para que se possa traçar caminhos e para a tomada de decisões. “Não temos nenhuma estimativa oficial, mas sabemos que tudo o que é produzido pela indústria tem uma fase inicial que depende dele”, afirma Fábio Mestriner, Coordenador Acadêmico de Pós-Graduação do Núcleo de Embalagem da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

Luciano Deos pretende instalar no Brasil uma agenda única do design, em que as entidades e o governo tenham uma só interlocução para poder alinhar e discutir os desafios, além de definir novas plataformas de promoção, para ter maior visibilidade no exterior. “A ideia é continuar em Cannes e encaixar nossos serviços em mais duas grandes vitrines internacionais”, planeja Deos.

Em novembro, a Abedesign consolidou a Brazil Design Week como evento anual em São Paulo, que servirá de preview da participação brasileira em eventos internacionais.

Em reunião do Fórum Brasil Design, movimento que congrega 20 entidades, foi montada uma agenda única no país, que consolida ações para o incremento do setor, durante a Brazil Design Week. Entre elas, a realização de um amplo mapeamento do mercado com a finalidade de desenvolver um planejamento estratégico de longo prazo, mais precisamente até 2020.

Ficou decidido que as entidades criarão um calendário único de eventos regionais, nacionais e internacionais, com desenvolvimento de um conjunto de ações estratégicas para o movimento. Também foi definido o apoio e o reforço ao papel do Programa Brasil de Design – iniciativa do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior voltada à inserção e ao incremento da gestão do design nos setores produtivos.

Outro grande destaque da Brazil Design Week foi o anúncio, pelo BNDES, de que empresas de micro e médio porte passarão a contar, em breve, com os benefícios do Cartão BNDES para contratação de serviços de design orientado para a inovação.

A expectativa é de que a iniciativa triplique os resultados das empresas do setor em três anos. O financiamento pode ser de até R$ 500 mil (para empresas com faturamento até R$ 600 milhões anuais), em 48 meses, com juros de 0,9% ao mês. O convênio prevê um estudo, em parceria com a Associação Brasileira de Empresas de Design (Abedesign) com o programa brasileiro de design, para definição de critérios de credenciamento das empresas. Um dos pontos fortes da Brazil Design Week foi a apresentação de inédito estudo consolidado do “Impacto do design no resultado das empresas” realizado pela Associação de Designers de Produtos (ADP) em conjunto com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

Design Gráfico ou Editorial?

Quando se fala de design na comunicação, logo pensamos em design gráfico. Mas isso é passado. Hoje, o correto é dizer design editorial. “Trata-se de um instrumental para existir uma comunicação efetiva. É algo claro e fácil para o leitor, sem grandes complicações”, define o professor Carlos Costa, coordenador do curso de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero.

Para ilustrar a explicação, o professor cita o caso da revista Trip, que contratou David Carson para desenvolver seu novo projeto gráfico. “O que ele fez foi um anti-design, era uma brincadeira que comprometia a legibilidade da revista.”

Importante lembrar que o design não existe apenas quando transposto para o papel, pode existir, por exemplo, no rádio e na televisão. “O que para a revista remete ao espaço, nos meios sonoros e visuais de comunicação remete ao tempo. Em dez segundos o rádio precisa te passar uma imagem, dar uma ideia de design, assim é na televisão também, a edição é o seu design”, explica Costa.

Deos, da Abedesign, lembra que não se trata apenas de forma, mas sim de toda uma abordagem, de um modo de pensar, ligados à inovação. “Isso não se dá apenas na comunicação. Qualquer empresa se expressa, tem um produto, oferece um serviço e tudo isso precisa ser desenhado e configurado. A grande questão é: como se diferenciar? Esse é o grande desafio de nossos tempos e pode ser, claro, transposto para o design.”
Ao comunicar uma ideia, estamos criando elementos que traduzem algo e, para isso, usamos o design, que é a expressão máxima de um conceito, seja ele um logo ou um produto. Quando se inventa demais, é sinal que o design se perdeu, como diz Deos , “o complexo não tem um formato bem definido, enquanto o design é democrático e o que é verdadeiramente democrático é o simples, é tudo aquilo que atinge uma linguagem universal”.

Quando existe um texto de difícil leitura, é hora de o design entrar no jogo. “Muitas vezes o jornalista ou o publicitário quer brilhar e simplesmente esquece do leitor. Temos que pensar se um bom infográfico não é melhor do que dezenas de informações jogadas em um texto. Precisamos saber se determinada reportagem está clara para o público e essa sensibilidade muitas vezes vem do editor de arte, que cuida do design, da diagramação da publicação”, explica Carlos Costa.

Design também é transversal, está presente em todos os processos. “Desde o marco zero de um projeto, produto ou publicação até o resultado final, há a necessidade de se pensar o design e é aí que reside sua importância, ele é ao mesmo tempo expressão e atributo de tudo aquilo que se pensou. É o fator integrador de várias atividades”, afirma Mestriner, da ESPM.

Em um jornal ou revista o que se trabalha é a integração entre imagem e texto. É preciso buscar algo que possa agregar valor em uma matéria, algo que traga facilidade e ao mesmo tempo explicação. “É a busca de uma tendência que está em voga, de dar respostas mais completas”, diz Deos.

No passado, revistas semanais abriam reportagens com mais de oito, dez páginas em revistas semanais. Com o sugimento da Internet e dos blogs isso acabou. Vivemos uma época em que há um fluxo intenso e interminável de notícias, mas, em contrapartida, não existe tempo para absorver tudo. O modo enxuto de se expressar também é uma forma de design, já que desenha o texto e a pauta na busca de uma boa resolução.

O Twitter, em que o usuário precisa registrar seu post (publicação on-line) em 140 caracteres mostra um tempo em que não se deve complicar, mas sim facilitar.

Carlos Costa, da Cásper Líbero, lembra que não é fácil inovar sem recursos. “Quando estava na revista Elle, tinha um borderô de algo em torno de 60 mil reais. Hoje é raríssimo achar uma revista que tenha metade disso. As equipes estão mais enxutas e isso trouxe um dano imenso, visto que as pessoas não trabalham mais em conjunto, é muita coisa online, todo um processo de criação, de diálogo se perdeu junto com a falta de grandes investimentos. É um salve-se quem puder em que não se para pra pensar como aquilo pode ser melhorado. O fotógrafo mal tem tempo de conversar com a editora, o design se enfraquece nesse tipo de relação”.

Fábio Mestriner acredita em um lado positivo na “virtualização” do universo midiático. “O design gráfico evoluiu demais com a computação gráfica. O que antes era difícil e mesmo impensável, agora tornou-se fácil de executar, o que abriu os horizontes para a experimentação gerando, assim, novas linguagens visuais. Há uma ponte entre o que habitava o plano do imaginário para o que é baixado para a realidade, isso é fato”.Se existe dinâmica, também há falta de tempo. Se de um lado se avança, do outro não há tempo para consumir a novidade. Nesta reação em cadeia, o design pode ser um excelente catalisador, algo que sintetiza ao mesmo tempo em que comunica com qualidade.

Dobradinha ouro e prata
Cannes foi possível graças à parceira entre a Abedesign e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex) e a subvenção das inscrições dos brasileiros no Festival. A AlmapBBDO ganhou o Leão de Ouro na categoria Corporate Identity, e o Leão de prata em design na categoria Flyers, Tickets, Invitations & Cards, com o Case Havaianas. Segundo Marcos Sulzbacher, diretor de criação da agência, “o objetivo foi mostrar o produto e a identidade visual desenvolvida.”

Design na internet levou bronze
O Brasil levou sete Leões em Cannes. Ouro para “Havaianas Identity” (AlmapBBDO). Prata para “Claro Identity” (GAD), “Havaianas Convite SPFW” (AlmapBBDO) e “Saxofunny Every Image Has a Sound” (DM9DDB). E três bronzes para “Natural Medium” (Tátil Design), “Fiat Stilo See Further” (AgênciaClick) e “Fundação Arco-Íris Identity” (Indústria Nacional Diálogo Design).

Na categoria Design de internet, a agência Click levou o Leão de Bronze 2009 com a peça “Enxergue além”. O VP de criação Raphael Vasconcellos, explica que foi criado um web site para divulgar o carro Fiat Stilo Black Motion.

“O site tinha a cor preta predominante e a ausência de luz permitia que o internauta passasse o mouse pela tela, onde cada detalhe do carro é mostrado com um rastro de luz”, descreve.

Para ele, o reconhecimento dessa criação abriu o olho do mercado para o trabalho de design nas agências, “já que fomos julgados pela forma, e isso é um mérito”, justifica Raphael Vasconcelos.

autor: Guilherme Pichonelli, colaborou Cristina Braga
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Um comentário

  1. Ao mesmo tempo o MEC definiu a nomenclatura para o curso como Design Gráfico, tendo que ser alterado quem mantinha outras nomenclaturas como Criação e Produção Gráfica Digital.

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