A atração pelo design





De uma palavra estrangeira desconhecida, “design” passou ao status de sexy nos últimos anos. As pessoas em geral não sabem muito bem o que significa, mas sabem que é melhor ter do que não ter. O consumidor está descobrindo o design só agora porque só agora ele se tornou estratégia de diferenciação no mercado.

Nunca tivemos tanta opções de consumo à disposição como agora. As prateleiras estão lotadas de variedades, cada uma querendo chamar mais a atenção. O design de embalagens procura estratégias de diferenciação há décadas, mas não é esse tipo de design que está entrando no vocabulário popular. O campo de competição agora se dá no cotidiano, nos lugares onde as pessoas delineiam suas identidades. As empresas estão investindo pesado na diferenciação pelo design do produto porque os objetos estão participando cada vez mais da identidade das pessoas. O design que atrai é, portanto, o design da identidade.

Antigamente, as pessoas se contentavam em ser normais. Hoje, elas não dispensam a normalidade, mas procuram ansiosamente um algo a mais que as diferencie. Elas precisam de um “diferencial competitivo” não só no mercado profissional, mas também nas relações familiares, nas relações amorosas, na religião. Para se tornar alguém na vida, é preciso ser como ninguém. E como demonstrar isso pras outras pessoas? Através de suas posses e atitudes.

É aí que entra o design. Ele é, ao mesmo tempo, posse e atitude. Não é o produto, mas está nele; não faz coisas, mas participa do que é feito através dele. Design são escolhas deliberadas embutidas nos objetos e, quando se adquire o objeto, adquire-se também as atitudes que o criaram — o processo de design — e as atitudes que o objeto proporciona — conforto, exaltação, comunicação.

As pessoas em geral não estão muito interessadas no processo de produção dos objetos do cotidiano. Entretanto, quando ouvem outras dizer que objeto “tem” um design inovador ou moderno, o processo se torna interessante porque sabem que as escolhas foram feitas priorizando a qualidade.

Antigamente, as marcas tradicionais asseguravam que o produto teria qualidade. As pessoas confiavam tanto nas marcas que se o produto apresentasse defeito era considerado apenas uma exceção ­— e ai de quem desconfiasse da marca que a família confiava há gerações! Hoje as pessoas não se identificam tanto com as marcas a ponto de ignorar defeitos porque suas identidades estão tão indefinidas e mutantes que as marcas já não conseguem mais se agarrar nelas.

O design atrai porque é perfeito para a bricolagem dessas identidades e não exige fidelidade à marca nenhuma. A sala que você escolheu cuidadosamente os móveis representa a sua identidade, não a das marcas dos produtos. Mesmo que você tenha um set de cozinha de uma marca famosa, ainda assim será a sua cozinha porque é você quem define como ela será usada.

Algumas empresas tentam se adaptar à essa realidade criando sub-marcas e linhas de produtos com diversas identidades associadas. Na minha visão, quem está realmente adaptado à nova realidade é quem deixa para que o próprio consumidor decida como encaixar o produto na sua teia de objetos de identidade, seja da marca delas ou não.

A Ikea, empresa sueca que fabrica e vende móveis populares, por exemplo, adota a estratégia de oferecer milhares de móveis diferentes em suas lojas. Os produtos não vêm montados e o consumidor pode combinar partes de outros móveis, criando soluções únicas. Não é à toa que a Ikea fez o trânsito entrar em colapso quando abriu suas portas em algumas cidades estadunidenses. Isso é que é atração pelo design!

O design, hoje, atrai tanto porque ajuda a responder as duas questões mais complicadas dos tempos pós-modernos em que vivemos: “quem sou eu?” e “como viver bem?”.

autor: Frederick van Amstel
fonte: usabilidoido

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