Procurando trabalho nas estragadinhas da web

Opinião: tempos atrás, quando o mercado só contratava, era difícil encontrar bons profissionais – os poucos disponíveis estavam, digamos, estragados pela demanda excessiva. Hoje o defeito se deslocou para outro lado.

O cenário é o mercado atual e as minhas tentativas de retornar a trabalhar nele. Resolvi escrever sobre as minhas experiências, tomando de carona o bom artigo Os estragadinhos da web, do Michel Lent Schwartzman (veja ao lado), que fala dos profissionais de web problemáticos da época do boom da internet.

Só que agora os tempos são outros, de modo que minhas escrevinhações podem ser chamadas de “As empresas web estragadinhas”.

Quem está procurando um emprego na área de internet nesta época, ou mesmo tentando se equilibrar como dá em um deles, já vivenciou a nova classe de empresas que está surgindo no mercado brasileiro.

Não há um perfil específico de empresa; podem ser multinacionais elegantes, pontocoms, portais ou até as agências de marketing do momento. A única característica em comum é que nasceram há menos de cinco anos, na carona do fenômeno web, e transformaram a busca de um lugar ao sol para trabalhar na internet em um thriller de terror, composto de entrevistas horrendas, vagas sem descrição específica, salários baixos e andares altos em edifícios de luxo.

Entrevista 1. Procurando emprego em sites especializados, mandando vários currículos, apelando para as indicações de amigos, finalmente consigo uma ou duas entrevistas.

Recebo um retorno para uma vaga: Diretor de Arte Júnior. Agência de webmarketing multinacional, badaladíssima. Cool, babe.

Portfolio embaixo do braço (ou melhor: publicado na web), lá vamos nós.

Chegando, sou posto em espera numa cadeira de metal que mais parece uma escultura do Caciporé. Olho em volta: tudo lembra o mais perfeito estereótipo da agência de publicidade hype: canos coloridos no teto, paredes revestidas de metal, aquário gigante no meio da recepção, uma festa.

Chamado para uma mesa de reuniões toda torta, sento sem jeito em um dos cantos desiguais do quadrilátero.

Logo de início, fico sabendo que a vaga não é bem para Diretor de Arte Júnior…

– Houve um erro, sabe? A vaga é para Assistente de Arte. Assistente de Arte Estagiário. Vaga operacional, sabe? Nós bolamos o layout e você replica a página em html 10 mil vezes. Mas, sabe lá, acontece uma chance (remota) de gostarmos do seu trampo…

– Mas como assim? Vocês não leram o meu currículo? Eu queria uma vaga de diretor júnior para desenvolver as minhas habilidades de gerenciar projetos. Já deixei de ser estagiário faz bastante tempo – explico, perplexo.

– O seu currículo? Ah, nós não lemos, sabe? Não tivemos tempo. Mas o que você acha de ficar conosco, como profissional overqualified, ganhando uns duzentinhos a mais?…

Deixa pra lá. Não tiveram tempo de ler o meu currículo? Então porque gastaram o meu, de ir até lá?? Está certo que o mercado está difícil, mas ter que trabalhar com quem não teve nem ao menos o respeito de ler o meu currículo, definitivamente não dá.

Passadas algumas semanas, cabeça mais fresca, renovam–se as esperanças:

Entrevista 2. Um portal de um grande pool internacional de fábricas de um ramo de insumos.

Vou até a empresa encontrar o funcionário que me telefonou. Depois de uma horrenda
interpelação sobre as minúcias das minhas habilidades na operação dos programas de internet, ele finalmente apresenta o cara que iria ser o meu chefe. Diretor Geral de Projetos, ou algo assim.

O cara entra mascando um chiclete enorme, freneticamente revirado na sua boca com a língua. Seu topete, feito uma “armação” com gel, parece o cabelo do Andy Warhol. Devidamente sentado com os pés pra cima, começa a me entrevistar. Deve ser um desses caras que querem posar de modernos, dando uma de “despojados”.

Entre uma mastigada de chiclete e outra, vai cuspindo: “Olha, a vaga aqui não é exatamente para designer. Queremos mais alguém com o perfil de webmaster, mas que saiba desenhar, mas olha, é preciso dominar o webtrends, netpublish, webestatistics, web–não–sei–que…(mais algumas outras siglas em inglês que eu nem entendi). O trabalho é simples: o design geral já está pronto. Você só vai fazer o marketing, fazer o desenho dos banners, produzir, publicar no sistema de controle de banners, controlar a visitação deles pelo webtrends, analisar os pontos de estrangulamento do servidor, produzir as páginas do portal segundo o layout padrão…bla bla…”

Depois de um longo tempo de discurso, a boca ruminante pára de falar um pouquinho e estanca aberta, chiclete ainda dentro, esperando uma resposta minha.

Suspiro fundo. – Preciso de um copo d’água. Esse eu nem quis saber quanto estavam oferecendo.

Entrevista 3. Portal de entretenimento, integrante de um dos maiores provedores de acesso brasileiros. Nesta pelo menos o martírio foi rápido. O entrevistador não tinha assunto.

O entrevistador chega e após um rápido “bom dia”, dispara a bateria de perguntas de praxe : ” – Dreamweaver? flash? fireworks? photoshop? frontpage? sim? sim? sim? sim? …” e depois fica olhando para mim, ar meio bobo, para ver se eu digo alguma coisa.

A esta altura, já percebo que é uma canoa furada. Mas eu sigo bravamente adiante. Resolvo entrevistá–lo.

– Gostaria de saber qual é o objetivo da empresa? Sua história? Posição no mercado? Quais são as suas perspectivas de crescimento? Cases de sucesso? Para que vocês querem um estagiário já formado, se vocês não têm nem um diretor de arte experiente para ensinar?

O entrevistador, para a minha estupefação, responde de tacada só :

– Olha, eu não sei muita coisa disso não, sou apenas o programador, na verdade estou nessa empresa há apenas dois meses.

Quando eu já ia levantando – assustado – da minha cadeira, o entrevistador da empresa web estragadinha fecha com chave de ouro:

– Hei, antes de ir embora, você não quer fazer um pequeno teste e desenvolver um trabalhinho nosso, desses que chegaram agora, só para mostrar para o nosso gerente a sua capacidade?

– … (Emudeci)

Estas situações estão se tornando cada vez mais comuns, marcam o início de uma tendência das empresas lançadas à deriva depois da moda de falências das pontocoms. É até comum as empresas arrocharem os salários em tempos de crise, procurando passar pelas turbulências. Mas a grande novidade aqui são as empresas que abrem mão de seus valores e, sem a menor ética, contratam pessoal a torto e a direito, unicamente na esperança de conseguir mais uns trocados espremendo a já magrinha vaquinha da internet.

autor: Sandro Friedland
fonte: Webdesigner

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8 Comentários

  1. Realmente as empresas que estão contratando profissionais da areá de web não têm noção nenhuma, a maioria das entrevistas que participo é furada, daquelas que voce sai da empresa e pensa perdi meu tempo de novo.

  2. Se cada um de nós soubesse do poder que tem para acabar com isso..

    Não basta ficar calado, isso é muito cômodo e fácil.

    Um artigo como esse deve ser divulgado.

    Vou além, ainda incluiria o nome desses empresários de merda.

  3. Mermão se falo a mais pura e completa verdade….

    Como pode resumir o mercado de trabalho da nossa área em tão poucas linha……

    Vo vende imóvel mermão que faze design na internet num tá com nada…..

    Vão todas as empresas se Fu…………

  4. Quando li suas peripécias em empresas supostamente bem conceituadas, logo de cara me vi em situações bem parecidas. É incrivel o despreparo e incoêrencia de “supostos” diretores de arte e criação. Não´é um caso isolado das “pontocoms” mas sim dos mercados publicitarios, web e gráficos! Como diria um amigo meu: Profissional com 5 anos de experiencia e muito tempo e dinheiro gasto são considerados estagiarios qualificados.
    Acompanhe os posts de trabalhos em diversos sites! Estagiario com exelentes noções de Pacote adobe Pacote Macromedia etc etc etc.
    A pura verdade é que isso não passa de uma justificativa para salarios baixissimos e uma grande carga horaria de trabalho.

  5. Sabe quando sorrimos de nervoso? Foi oque aconteceu comigo ao ler sua matéria, já passei exatamente por tudo isso que você descreveu, mas o “engraçado” que quando digo EXATAMENTE quero dizer isso mesmo, parece até que visitamos as mesmas empresas… Pensei ser o único cidadão com essa percepção exposta por você. Sou solidário a sua batalha! Acho qté que pessoas como nós poderíamos criar um site fantasma, do tipo, “não trabalhem ná…” e detonar essas empresas contando seus podres, eu visitaria sempre. Perco tempo e dinheiro indo a várias entrevistas infrutíferas, furadas em empresas burras e de caráter questionável. E agora sei que não sou o único.

  6. brilhante o texto Sandro, inflamavel, mas receio que não é apenas no campo da web que encontramos esse cenário medíocre

  7. concordo plenamente e ainda digo que esse problema se extendeu não apenas à online. mas sim em todo mercado de comunicação.

    foi para uma entrevista, onde a empresa (house agency) pedia conhecimentos avançados em varios programas, PC Mac e o diferencial seria saber usar Silycon Graphics. (será que o cara tem noção de quanto custa um Silycon Graphics?)

    uma média de 12h de trampo por dia, R$8 de refeição e 800,00 de salario. só pode ser brincadeira e era para diretor de arte junior.

    eu não vou ajudar a prostituir ainda mais o mercado!

    eu fico doido quando vejo as empresas abusarem dessa maneira de profissionais que gastam MUITO dinheiro em formação e depois tem q se sujeitar a isso.

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