Estágio x salário

“Ó dúvida cruel! Trabalho para pagar a faculdade ou “pago” para ter uma experiência fora dela?” Foi esse o dilema que a estudante de Direito, Karina Michelin, de 22 anos, estudante do quinto ano do curso na UniFMu (Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas) viveu na hora de desistir de seu primeiro estágio. Ganhando pouco, R$ 240,00 por seis horas de trabalho como aprendiz – a grana não dava (nem de longe) para bancar a mensalidade e muito menos os gastos com alimentação, livros, etc – Karina abandonou o trabalho em um pequeno escritório de advocacia e foi trabalhar no setor público, cujo salário era de R$ 950,00, mais benefícios.

“Será que estou fazendo a coisa certa? Me perguntei isso milhares de vezes, antes de decidir”, conta a estudante. O dilema é inevitável, afinal, o estudante deixa de lado uma oportunidade em sua área, que muitas vezes, é restrita e altamente competitiva, para ganhar mais. A dúvida, porém, cerca a vida de milhares de estudantes que têm como compromisso, pagar a faculdade. Aí, escolher entre a experiência e o trabalho, acaba sendo uma escolha, quase sempre matemática. “Muita gente me disse, que eu estava fazendo uma besteira, que não ia conseguir mais estágio se não tivesse experiência, mas como eu ia fazer sem dinheiro?”, diz. Para Karina, esse é o grande problema da maioria dos estágios no Brasil, a exploração de mão-de-obra barata. “Tem muita empresa de telemarketing que anuncia vagas para estágio, quando na verdade quer pagar pouco. Fora isso, há empresas que exigem que o estudante trabalhe como profissional, mas o salário…”, reclama.

A escolha de trabalhar no setor público fez com que Karina ficasse três anos afastada da experiência com Direito. Aos poucos, a rotina do escritório de criminalística foi ficando para trás e, cada vez mais, a financeira fazendo parte de seu dia-a-dia. Enquanto o tempo passava, Karina via seu sonho de trabalhar com advocacia ficando mais distante. Chegando próximo do fim da faculdade resolveu que precisava voltar para sua área, independente do valor da bolsa-estágio. “Avisei todos os meus professores que eu estava em busca de estágio e coloquei nas mãos deles o meu currículo. Até que souberam de uma vaga, me indicaram e fui selecionada”, conta. O processo seletivo não teve mistério. As perguntas procuravam desvendar uma característica que qualquer especialista defende ser fundamental ao bom estagiário, a vontade de aprender. “Era um questionário com mais ou menos 50 questões para saber se eu tinha iniciativa e para traçar meu comportamento no ambiente de trabalho”, lembra Karina.

Rotina de trabalho

Durante suas oito horas de estágio Karina concilia atribuições que ela mesmo considera burocráticas (elaboração de relatórios, planilhas, etc) com atividades exclusivamente ligadas à rotina de um advogado como preparar petições e visitas ao fórum para acompanhar processos. Diferente de seu primeiro estágio, Karina acredita ter mais responsabilidade em suas mãos. “Aqui, nós trabalhamos meio que no limite. Temos inúmeros processos até porque o escritório é muito maior e trabalha com a área cível e trabalhista”, explica. Ela complementa que este ritmo até faz com que o perfil dos profissionais do escritório seja mais jovem. “Você vê muita gente nova aqui dentro, não só estagiários. O ritmo é forte e exige muito pique”, diz.

A correira do dia-a-dia que pode assustar grande parte dos estagiários, especialmente jovens recém egressos do Ensino Médio, é tirada de letra pela estudante. “Acho que a gente aprende muita coisa o tempo todo. Nem consigo comparar como era antes de entrar aqui. Lógico, tem a parte chata de fazer planilha e relatório, mas também tem muita coisa que eu não vivenciaria se não tivesse a oportunidade de estagiar. No fim das contas, acabei me acostumando ao ritmo e às atividades que não vejo tanto problema nisso”, diz.

Uma vantagem que a jovem vê no seu estágio é que as decisões tomadas pelos sócios do escritório não ficam restritas ao conhecimento dos diretores da empresa, pelo contrário, também são repassadas aos estagiários para uma maior unidade na equipe. “Isso é muito legal, somos comunicados de tudo que acontece. Vejo outros estágios na facul que meus colegas não sabem nada mais do que o mundinho das atribuições deles”, compara. Outro fator positivo que Karina considera fruto de sua vida de estagiária é sua capacidade de argumentação. “Quando entrei no escritório e precisava falar com o cartorário, em geral é só concordava com o que ele dizia. Agora, se um processo atrasa eu já consigo me posicionar e discutir a questão. Isso também é positivo para a faculdade e para a vida”, considera.

Há apenas um ano de sua formatura, Karina já sabe “o que quer ser quando crescer”. Com a prática do escritório, ela se apaixonou pela justiça trabalhista, área um tanto quanto discriminada pelos colegas de profissão. “Todo mundo diz que a área trabalhista é uma justicinha de reclamantes, coisa simples que qualquer um faria. O preconceito existe porque ela é uma área muito mais informal do que as outras ligadas ao Direito, mas é o que gosto e tenho vontade de fazer”, diz.

fonte: Universia

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2 Comentários

  1. Essa exploração só persiste porque a aceitamos.
    Quando ninguém mais se submeter a esmolas, chamada de ajuda de custo, as empresas serão obrigadas a pagar dignamente.
    Gente, tem motoboy ganhando 800 reais!

  2. Eu já vivi uma situação assim: fazia estágio em um site de entretenimento, ganhava 250 reais por mês por 4 horas de trabalho, aprendia muita coisa, mas metade da grana era usada pra condução até lá. Surgiu uma proposta no atendimento do unibanco, pra ganhar R$960,00 + VR + VA + VT + plano de saúde, não pensei duas vezes. Depois bateu um certo arrependimento, mas creio que foi uma sábia decisão, com a diferença no pgto consegui investir em livros, treinamentos, etc.

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