Com a tecnologia de hoje, você pode fazer o seu trabalho a qualquer hora. Mas é preciso impor limites

  1. Steve Jobs - Home Office




Há algum tempo a ideia de que o trabalho não termina quando saímos do escritório tem lentamente dominado o inconsciente coletivo. A tecnologia ajudou a gente a trabalhar de qualquer lugar e a qualquer hora: com as facilidades de conexão, as pessoas resolvem coisas do trabalho pelo celular no fim de semana, lêem relatórios no tablet enquanto almoçam sozinhas, programam ou escrevem de noite, em casa, quando é mais calmo, respondem e-mails enquanto esperam o jantar. Pelo menos há uma década e meia, esse movimento foi visto positivamente por gerentes e gurus de administração, como sinal de que as pessoas estavam dispostas a dar tudo para cumprirem e excederem suas metas, e a conexão contínua permitiria, teoricamente, aproveitar os momentos mais produtivos de cada um. A lógica das maratonas noite adentro dos empreendedores de sucesso do Vale do Silício eram copiadas mundo afora (alguns dos mais bem-sucedidos diziam que equilibrar vida pessoal e profissional era para perdedores).

Mas, ainda bem, parece que cada vez mais gente começa a ver esse culto ao trabalho 24 horas como algo não necessariamente bom. Melhor dizendo: ser workaholic pode ser um completo atraso de vida.

A prestigiosa revista britânica The Economist, em seu número dedicado a previsões para o ano que vem, diz que o emprego “9–5” (como os americanos chamam o horário comercial normal) voltaria à moda em 2015. Lucy Kellaway, autora do artigo, escreve que:

Ter o seu trabalho terminado até uma hora razoável não será mais o sinal de que você é um preguiçoso, mas que você está trabalhando de maneira eficiente.

E não basta reduzir a jornada de trabalho no papel – porque há gente que, se deixar, não para de trabalhar. A Economist dá alguns exemplos de como impor limites está se tornando comum, como no caso da filial do Google na Irlanda que confisca os computadores e eletrônicos de trabalho quando eles deixam o escritório; ou a montadora Daimler, que deleta os e-mails recebidos quando alguém está de férias. A articulista acha que “em 2015 outras companhias irão adotar sistemas parecidos, projetados para fazer com que seja mais fácil que nós controlemos a tecnologia – ao invés do contrário”.

O engraçado é que a ideia de que trabalhar muitas horas é algo desejável é, ao mesmo tempo muito recente, e muito velha. Quando o parlamento britânico limitou em 10 a quantidade de horas de trabalho por dia (as pessoas trabalhavam insanamente nas fábricas), a produtividade aumentou no meio do século 19. No início do século passado, o “gerenciamento científico” de Taylor ensinava que tempo de trabalho reduzido melhoraria a produtividade. E isso foi razoavelmente verificado por anos. Por que diabos então passamos cada vez mais tempo no trabalho, ainda mais considerando que algumas tecnologia de fato aceleram as nossas atividades?

Há o vício em reuniões ou em e-mails (como copiar todo mundo em qualquer decisão), é claro. Mas acho que há outra questão importante que o artigo da Economist não toca: o fato de que não apenas estamos levando, graças à tecnologia, o trabalho pra o meio da nossa vida pessoal, mas o problema que é praticar o contrário disso. Os mesmos dispositivos que nos permitem trabalhar de qualquer lugar também mantêm a nossa vida pessoal no ambiente de trabalho. Levamos os amigos para passear com o Facebook, mesas de bar ininterruptas nos grupos de WhatsApp e programas de TV nos links para Youtube. Tudo isso obviamente toma tempo. E aí quando vemos já deu a hora de ir embora e o trabalho se acumula para o dia seguinte, ou para o meio do jantar.

Há pesquisas nos EUA e em outras países que mostram que as pessoas passam cada vez mais tempo no escritório, e tenho dúvidas sobre o quanto isso tem a ver exatamente com mais trabalho. As nossas horas extras não são só culpa de chefes abusivos ou “entrega” para o trabalho, me parece, mas sim da nossa dificuldade de separar o que é trabalho de todo o resto. Essa discussão me lembrou um artigo recente e bem interessante que apareceu no Huffington Post, que fala de como na Alemanha a coisa é diferente. Por lá, no trabalho as pessoas só trabalham, e elas saem cedo para curtir a vida e tomar a sagrada cerveja ou frequentar seus clubes. Separar as duas coisas fazem dos alemães trabalhadores mais eficientes, e não parece deixá-los mais tristes. Segundo a reportagem, acessar o Facebook no trabalho é impensável, para os próprios empregados.

Quando a internet começou a ficar popular, os setores de TI de empresas correram para criar uma lista de sites e serviços proibidos. Orkut, Gmail, MSN, Youtube, blogs… Havia um monte de coisa fora do alcance dos navegadores nas estações de trabalho, e funcionários xingavam os técnicos o tempo todo – ou aprendiam gambiarras. Mas em muitos lugares essas barreiras foram caindo, e se perduraram, o smartphone no bolso de cada funcionário tratava de deixar as restrições inúteis. Com as nossas horas-extras intermináveis, fica a questão: será que essas proibições arcaicas não tinham alguma razão de ser?

Seja como for, de vez em quando eu mesmo dou uma de “fiscal chato de TI” e ligo restrições a coisas distrativas. Uso de vez em quando o Antisocial, que bloqueia alguns sites por um período de tempo, quando preciso me concentrar, e uso o Social Fixer no Chrome, para me lembrar quanto tempo estou perdendo no Facebook. São as minhas estratégias para tentar não me perder com as interrupções. Quais as suas?

autor: Pedro Burgos
fonte: Blog Pedro Burgos

imagem: Steve Jobs em seu home office – 2004. A última vez que Diana Walker o fotografaria.

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