A CEDAE, ao optar por um concurso entre os funcionários para criação de sua nova marca, ignorou o fato de existirem profissionais formados em design há mais de 40 anos nessa cidade (considerando como marco inicial da institucionalização da profissão a fundação da ESDI, a primeira escola de design da América Latina, na década de 60). Ignorou o fato de existirem mais de 5 cursos de graduação em design, só na cidade do Rio de Janeiro. Ignorou o fato de existirem atualmente 6 cursos de mestrado e um curso de doutorado em design no Brasil.
Ignoraram os designers. Preferiram um concurso com os funcionários.
É, no mÃnimo, um desrespeito com os profissionais de design.
Fosse um projeto de arquitetura, para as fachadas das diversas sedes da empresa, fariam um concurso com os funcionários?
Fosse um projeto para as novas estações de tratamento de esgoto, fariam um concurso com os funcionários?
Nada contra os funcionários da CEDAE, mas existem profissionais mais adequados para executar determinados projetos. Um projeto de reestruturação da imagem institucional deveria contar com designers na sua execução.
O texto no site da CEADE evidencia como foi equivocada a avaliação sobre a complexidade e importância de um projeto de identidade visual:
Quanto à mudança, o presidente destacou que marca, criada há 30 anos, foi reestruturada fortalecendo o nome da empresa e de seu principal produto, a água. Victer também explicou que a nova marca utiliza elementos que lembram as marolas produzidas pela queda de uma gota de água e formam as letras que compõe o nome da empresa. ‘Estas pequenas ondas receberam tons de verde, em referência à responsabilidade da empresa com o meio-ambiente, e de azul, que denota a limpidez das águas distribuÃdas pela companhia. Ou seja, escolhemos uma marca moderna, que identifica a nova gestão da Cedae, pró-ativa e dinâmica’, afirmou Victer.
Ao que tudo indica, optou-se por fazer uma campanha interna de marketing motivacional ao invés de um projeto sério de reformulação da identidade visual da empresa. Em função disso, fez-se um concurso entre os funcionários, do qual foram vencedores os operadores de computador, que provavelmente têm domÃnio dos programas gráficos. Quanto à adequação da marca ao discurso institucional…bom, esse é um assunto que dificilmente poderia ser resolvido com um programa de computador.
O resultado fala por si só.
No alto, a marca antiga, da década de 60, cujo sÃmbolo partia das letras A e E (água e esgoto), com uma solução gráfica que permite sua leitura em qualquer sentido. Abaixo, a nova marca, feita por funcionários da área de informática da CEDAE. O sÃmbolo, caso aplicado sem a assinatura CEDAE, pode ser qualquer coisa.
A marca, além de ser conceitualmente frágil e ter uma solução gráfica óbvia, apresenta problemas construtivos tanto no sÃmbolo quanto na tipografia.
Embora a marca mereça crÃticas, é importante destacar mais uma vez que o grande erro foi o processo, e não o resultado em si. Para deixar mais clara a dimensão do problema, vale recuperar a história recente de um projeto semelhante.
Há alguns anos, outra empresa prestadora de serviços públicos do Rio de Janeiro passou por um processo de reestruturação de sua identidade visual. Mas, ao contrário da CEDAE, a Light, responsável pela distribuição de energia elétrica na cidade, resolveu o problema com a ajuda de designers.
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