No dia 6 de fevereiro deste ano a CEDAE (Companhia Estadual de Ãguas e Esgotos do Rio de Janeiro) apresentou sua nova marca, como parte do processo de reestruturação pelo qual a empresa passa. A notÃcia foi veiculada no Jornal O Globo e no mesmo dia a nova marca já era destaque no site da CEDAE.
O fato não chega a ser uma novidade. Pelo contrário, é cada vez mais comum que ações dessa natureza ocorram em tempos de mudança de governo: os recém-eleitos parecem querer sepultar qualquer imagem que possa remeter à administração anterior. Assim sendo, nada mais natural do que desejar mudar a marca, o elemento mais emblemático e de maior visibilidade da identidade visual de uma instituição.
A notÃcia passaria em branco não fosse um ponto inusitado, que chamou a atenção dos designers do Rio de Janeiro: a nova marca havia sido escolhida em um concurso, do qual participaram os funcionários da própria CEDAE. Não houve participação de designers em qualquer etapa do processo - nenhum profissional da área foi chamado sequer para compor a comissão julgadora do concurso.
O assunto gerou discussão entre os profissionais de design do Rio de Janeiro. Apesar de estarmos acostumados com a idéia equivocada de que basta uma pessoa capaz de operar um computador com programas gráficos para se fazer o trabalho dos designers, a notÃcia do concurso para criação da marca da CEDAE causou consternação pela falta de cuidado com a imagem da própria empresa e pela falta de respeito com uma categoria profissional. Logo surgiram reações diversas, que iam da pura chacota em listas de discussão, a manifestos contundentes de membros da ADG-Rio (Associação de Designers Gráficos do Rio de Janeiro) repudiando o ocorrido.
É importante frisar que o problema não foi exatamente a mudança da identidade visual. O problema não foi descartarem uma marca que já durava 30 anos (feito memorável para uma marca, especialmente nos dias de hoje). O problema foi a abordagem utilizada na “mudança”.
Um sistema de identidade visual é um projeto complexo, em geral parte de um processo de comunicação abrangente que envolve diversas instâncias e pontos de contato de uma empresa. Uma das primeiras formas de relacionamento do público com uma instituição, antes mesmo de consumir seus produtos e serviços, é o contato com sua imagem. Não por acaso dá-se tanta importância à marca: ela tem a responsabilidade de sintetizar um discurso complexo através de poucos elementos gráficos, representando a instituição.
Os designers dedicam parte de suas vidas a estudar este assunto. A adequação do discurso da empresa a uma representação gráfica demanda um equilÃbrio entre aspectos funcionais/objetivos desta representação, e aspectos subjetivos pouco tangÃveis. Entre os aspectos objetivos, podemos citar: a facilidade de reprodução em diferentes meios (como tampas de bueiro feitas em ferro fundido, por exemplo); a possibilidade de redução, que permita a aplicação da marca em escalas variadas sem perder a leitura; o planejamento dos possÃveis desdobramentos dos elementos da identidade visual, de maneira a compor diferentes assinaturas que permitam flexibilidade na utilização da identidade sem perder a unidade do conjunto etc. Entre os aspectos menos tangÃveis, podemos citar: os significados atribuÃdos à representação da empresa; a pregnância da marca, que garanta seu reconhecimento, fácil memorização e permanência ao longo do tempo; a sÃntese e consistência do que seria a tradução gráfica do discurso institucional da empresa. A identidade visual seria, em tese, um sistema de elementos que traduzem em forma gráfica aspectos pouco tangÃveis que compõem a identidade da empresa.
Dada a complexidade de execução de um projeto dessa natureza, é natural a reação dos designers do Rio de Janeiro ao anúncio da nova marca da Companhia Estadual de Ãguas e Esgotos. Não só pelo resultado em si, mas principalmente pelo processo pelo qual se chegou a ele.
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