Em 2001, a agência Leo Burnett criou uma campanha para comemorar os 25 anos da Fiat no Brasil. Um dos pontos altos do comercial era um belÃssimo poema sendo narrado em off. Em release divulgado pela agência, o poema é atribuÃdo à Clarice Lispector. Uma matéria no Estado de S.Paulo de 7 de julho de 2001 chegava a dizer: “O publicitário Alexandre Skaff mergulhou na obra de Clarice Lispector e achou inspiração nos versos de ‘Mude’ para criar o filme de 25 anos da Fiat”.
Entretanto, o poema “Mude”, de larga circulação na internet, já foi atribuÃdo, além de Clarice, também a Paulo Coelho e a CecÃlia Meireles. Paulo Coelho, com integridade, elogiou o poema mas não o reconheceu como seu. CecÃlia e Clarice, falecidas, não tiveram chance de fazer o mesmo.
O poeta Edson Marques afirma ser o autor do poema, registrado por ele na Biblioteca Nacional. Além disso, “Mude” também já foi interpretada por Antonio Abujamra, na peça Mefistófeles, e por Pedro Bial, no CD Filtro Solar, da Sony Music, sempre creditada a Edson Marques. Matéria da Veja, de 9 julho de 2003, também cita a poesia “Mude” como sendo de Edson, apesar de à s vezes atribuÃda a Clarice.
Edson, em 2005, concedeu entrevista ao Programa Provocações, da TV Cultura. Depois disso, a Editora Original - Pandabooks publicou o livro-poema “Mude”, com prefácio de Antonio Abujamra.
Edson Marques agora exige que a Leo Burnett faça uma retratação pública do release onde afirma que “Mude” é obra de Clarice.
A Leo Burnett não comenta sobre o assunto. Sua posição oficial é que comprou “legalmente” os direitos de uso do poema do herdeiro de Clarice Lispector. Ponto.
O herdeiro de Clarice Lispector, seu filho, Paulo Gurgel Valente, da empresa Profit Projetos & Consultoria, nunca fala para a imprensa sobre Clarice Lispector, a não ser via fax ou e-mail. Embora já contatado pela imprensa sobre o caso, até por email, nunca deu nenhuma declaração.
A Rocco, editora de Clarice Lispector, também tirou o corpo fora: disse ser somente responsável pelos direitos de publicação da obra da autora. Uma agência que desejasse direitos de licenciamento para um comercial teria que negociar diretamente com o herdeiro.
Edson chegou a oferecer 10 mil dólares para quem provar que “Mude” é de Clarice. Nenhum voluntário se apresentou. Na obra completa da autora, não há livros de poesia. Além disso, fontes extra-oficiais da Leo Burnett confirmaram que Alexandre Skaff realmente encontrou a poesia enquanto navegava na internet. Mais uma vez, a internet. Será ela a culpada de tudo?
A história está excessivamente mal-contada. Temos três cenários hipotéticos, cada um com um mentiroso diferente:
- Edson Marques está mentindo. A poesia é de Clarice e seus direitos foram legalmente cedidos por seu herdeiro à Leo Burnett. Pergunta: onde está essa poesia na obra de Clarice?
- A Leo Burnett está mentindo. Encontraram a poesia na internet com atribuição indevida, usaram sem pedir autorização e, quando Edson reclamou, inventaram ter comprado os direitos do herdeiro. Pergunta: por que o herdeiro não está fazendo um escândalo? Eu não iria gostar se dissessem que eu vendi algo que não vendi, ainda mais se esse algo não for meu para vender.
- O herdeiro de Clarice está mentindo. Quando foi procurado pela Leo Burnett, vendeu a eles o direito de uso de uma obra que não possuÃa. Pergunta: por que a Leo Burnett não reconhece o inocente erro inicial (afinal, muitas outras pessoas também atribuÃram esse poema a Clarice) e não faz um escândalo contra o herdeiro, no mÃnimo, exigindo seu dinheiro de volta?
Em 2004 Edson Marques obteve sentença judicial favorável em Ação CÃvel onde a Leo Burnett, depois de três anos, foi obrigada a apresentar em JuÃzo o “contrato de licenciamento” (ilÃcito). Afinal, se tal contrato não existisse, a briga de Edson seria então com a Leo Burnett; se existisse, seria com o herdeiro.
Como o contrato não tem data, não foi registrado, não tem testemunhas, e nem traz a assinatura da Fiat, em 2005 Edson moveu nova ação judicial contra a Leo Burnett e a Fiat.
Os herdeiros de Clarice Lispector, desonestamente, “venderam” à Leo Burnett um poema alheio, ao preço de cinqüenta mil dólares. Mesmo já descobertos no “engano”, os herdeiros se recusam a falar com a Imprensa sobre o caso. A agência Leo Burnett, portanto, que desde o inÃcio não checou devidamente as informações sobre a autoria do poema, firmou um Contrato de Licenciamento de Uso de uma obra que nunca foi escrita por Clarice Lispector.
Depois de quase 6 anos de tanta confusão, tantas notificações, reuniões, e-mails, entrevistas e uma Ação Judicial já julgada favorável ao Edson, finalmente a Fiat está sendo citada em JuÃzo para que eventualmente se responsabilize por algo que sua Agência não foi capaz de fazê-lo até agora.
Será que toda esta novela ainda acaba este ano?
A sentença judicial favorável a Edson Marques e os documentos anexos podem ser visto por qualquer advogado na 5a. Vara CÃvel do Foro Regional de Santo Amaro, São Paulo.

Confira!
Desafiat
Blog sobre a polêmica, criado por Edson Marques
O poema “Mude”
Blog principal de Edson Marques
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Esse negócio de propriedade intelectual e direito de uso de imagem é um problema só. Mas que rolo absurdo esse.
Aguardaremos cenas dos próximos capitulos. O processo está correndo sobre sigilo? Se não, qualquer individuo pode ir lá consulta-lo, não há nenhuma restrição a pessoas “comuns” verificar processos abertos.