Kitsch mais

13 Fevereiro | 2007       Categoria: Design

Dizem que a palavra kitsch nasceu na Alemanha, em Munique, para designar trabalhos artísticos apressados e mal feitos, próprios da cultura de massa. Há, porém, quem diga que o termo veio da Áustria, onde as pessoas (as chiques, é claro) usavam-no como uma gíria para designar objetos de mau gosto. O fato é que a expressão data da revolução industrial, entre os séculos XIX e XX, onde os bens de consumo começaram a ser fabricados em escala industrial (e, obviamente, mal feitos, a julgar pela tecnologia disponível naquele tempo).

Somente nessa época é que os plebeus puderam ter acesso a coisinhas que antes só os nobres e burgueses ricos podiam colecionar. É claro que a qualidade e o acabamento dos mimos eram discutíveis, mas, para quem antes não tinha nada, foi uma festa. Data daí o início do consumismo desenfreado, um furor que culminou no que hoje se observa em lojinhas de R$ 1,99 (não, por acaso, verdadeiros templos do kitsch).

O fenômeno ocupou pensadores por anos, desde o famoso Abraham Moles, que chegou a escrever um ensaio a respeito, até o respeitadíssimo Umberto Eco. Se hoje decidi escrever a respeito, é porque me sinto afogada num mundo descontroladamente kitsch.

Basicamente, o kitsch é a materialização da falta de estilo, normalmente associada ao brega e ao mau gosto. Ele está em todas as áreas do mundo civilizado, das artes aos meios de comunicação. E está longe de se restringir a objetos baratos e populares. O kitsch tem alguns princípios que o tornam facilmente identificável. Preste atenção:

1. Princípio da inadequação: é quando se observa no objeto um desvio da sua forma em relação à sua função básica. Um apontador em forma de torre Eiffel, é um bom exemplo. A forma da torre em nada contribui para que o apontador funcione melhor.

2. Princípio da acumulação: é a compulsão pelo preenchimento do vazio com texturas e adornos. É o exagero em seu elemento, é o horror à limpeza visual. Ex: a típica “perua” coberta de jóias e roupas de etiqueta com estampas chamativas; folhetos cheios de fotos e informações que não interessam, presentes apenas para preencher e aproveitar o espaço.

3. Princípio da percepção sinestésica: são as múltiplas relações sensorais provocadas por um único objeto (ex: carta perfumada, caixinha de música com bailarina, websites com música de fundo).

4. Princípio da mediocridade: modismos, grande aceitação pela massa, baixo
nível cultural da comunicação, uso do grotesco (ex: decoração de natal com neve em um país tropical, chaveiros de time de futebol, bundas e peitos femininos evidenciados em campanhas de cerveja).

Há outras características marcantes: as linhas são sempre curvas e complexas; as superficies são exaustivamente adornadas (atulhamento total, não há espaços vazios); as cores são sempre vivas e contrastantes, normalmente em tons degradês e com efeitos especiais (o pôr-do-sol em ilustrações é um ícone kitsch); os materiais imitam outros materiais (fórmicas que imitam madeira, plásticos que imitam metal, pedras que imitam diamantes, pinturas que imitam material envelhecido, acrílico que imita vidro), as dimensões são sempre exageradas (miniaturas de monumentos, insetos gigantes). É a invasão de objetos inúteis e feios na casa, na rua, no escritório, na Internet, na bolsa, no carro, no banheiro, na televisão… na sua vida!

O fato é que chegamos a tal ponto que o mundo inteiro virou uma colossal exposição kitsch. Quer ver o princípio da acumulação em sua melhor forma? É só tentar comprar um telefone celular que só funcione como telefone. Ele necessariamente tem que ter outras 453 funções que você não precisa ou não quer. E isso vale para todas as maravilhas tecnológicas disponíveis no mercado, de relógios a carros; de liqüidificadores a aparelhos de DVD. Quer comer? Vá em qualquer restaurante: são 32 tipos de saladas e 47 pratos quentes no bufê, sem contar as sobremesas. Quer comprar um biscoito? É só escolher entre os que têm 7 vitaminas (8 sabores) e os que são duplamente recheados (12 personagens de desenhos e 15 embalagens diferentes). Nem uma simples manteiga dá para comprar mais com tranqüilidade: são tantos elementos, versões, componentes (funcionais ou não), que você precisa de um curso de nutrição para conseguir ter um mínimo de base para avaliação. Socooorrrro!!!!!

A tecnologia também deu asas ao princípio da sinestesia, onde qualquer coisinha que funcione a baterias toca música, joga em rede, acessa e-mails, mostra fotos, passa filmes e pisca, tudo ao mesmo tempo agora. É de dar dor de cabeça.

As dimensões nunca levam a ergonomia em consideração: ou o seu dedo é muito grande para o teclado do telefone ou a televisão é gigantesca para o tamanho da sua sala. As geladeiras podem até substituir os guarda-roupas no armazenamento de amantes, de tão grandes que são. E, claro, para cozinhas cada vez mais minúsculas e famílias idem.

Tem também a desmedida imitação de materiais (aparelhos de som de puro plástico, todos com cara de aço escovado; ops, minto, os mais modernos agoram também simulam madeiras nobres). Sobre isso, chegamos ao supra-sumo da sofisticação: há até políticos que se travestem de modelos éticos e o povo consome com entusiasmo, mesmo que a imitação seja tosca e claramente falsificada.

Por que as pessoas gostam tanto de ser enganadas, ludibriadas, atulhadas de informações inúteis, mergulhadas em pseudo-cultura?

Talvez a resposta esteja na frase de Milan Kundera, em seu
livro A insustentável leveza do ser: “Nenhum de nós é sobre-humano a ponto de poder escapar completamente ao kitsch. Por maior que seja o nosso desprezo por ele, o kitsch faz parte da condição humana”.

Ai de mim

autora: LIGIA FASCIONI
fonte: Acontecendo Aqui

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