John Zhang tem um recado para a Cingular Wireless e para a Verizon Wireless, mas que serve tambĂ©m para qualquer empresa que recorra Ă  publicidade para atacar a concorrĂȘncia: em vez de atrair a clientela do concorrente, talvez vocĂȘ esteja prejudicando a si mesmo.

Zhang, professor de Marketing da Wharton, descobriu que a publicidade combativa — do tipo utilizado pelas fabricantes de cerveja, especialmente pela Anheuser-Busch e pela Miller, famosas por recorrerem a essa espĂ©cie de propaganda — pode ser um tiro pela culatra. Em vez de atrair o consumidor para o anunciante, essa espĂ©cie de publicidade pode tornar as pessoas indiferentes a todas as ofertas de uma determinada categoria de produtos. Isto, por sua vez, pode resultar em menos lucros para todos, na medida em que as empresas se vĂȘem obrigadas a baixar os preços para atrair o consumidor.

“A publicidade combativa, tĂ­pica dos mercados maduros, tem um estilo de propaganda que conquista a preferĂȘncia do consumidor, mas nĂŁo amplia a demanda da categoria”, assinala Zhang em uma pesquisa intitulada “Uma teoria da publicidade combativa”.

Esse Ă© exatamente o tipo de publicidade que tĂȘm empregado a Cingular e a Verizon, as maiores empresas de telefonia sem fio do paĂ­s. Um ano e meio atrĂĄs, por exemplo, a Cingular veiculou uma lista em que comparava seus serviços, um a um, com os da Verizon. Na ocasiĂŁo, a Cingular justificou a veiculação do anĂșncio alegando a necessidade de se defender de afirmaçÔes equivocadas feitas pela concorrente. “A melhor publicidade nesse segmento Ă© aquela em que as empresas expĂ”em suas vantagens”, disse Marc Lefar, diretor de marketing da Cingular, em entrevista a um jornal. “NĂŁo deixaremos, porĂ©m, de esclarecer qualquer anĂșncio veiculado pela concorrĂȘncia que possa induzir o consumidor a erro.”

Recentemente, as duas operadoras passaram a proclamar as virtudes de suas redes. A Verizon diz possuir “a rede mais confiável do país”, enquanto a Cingular insiste em reiterar que as “chamadas feitas por sua rede dificilmente caem”.

De acordo com o estudo de Zhang — feito em parceria com Yogesh Joshi e Jagmohan Raju, ambos da Wharton, e Yuxin Chen, da Universidade de Nova York —qualquer empresa que se sinta tentada a recorrer a uma publicidade agressiva deveria pensar duas vezes. “No passado, as pessoas diziam que se vocĂȘ aumentasse seu volume de publicidade, nĂŁo haveria mal nenhum nisso, salvo, talvez, um possĂ­vel desperdĂ­cio de dinheiro”, observa Zhang. “Fomos mais alĂ©m e constatamos que tal prĂĄtica pode culminar com o acirramento da concorrĂȘncia de preços.” Sem reduçÔes proporcionais de custos, a redução dos preços pode redundar em um volume menor de lucros

A visĂŁo tradicional da publicidade reza que “o consumidor, bombardeado de tal forma pela propaganda, deixa-se convencer pela empresa onde faz suas compras a ponto de se tornar cĂșmplice ardoroso dela”, informa o estudo. NĂŁo hĂĄ dĂșvida de que isso acontece em alguns casos. Em outros, porĂ©m, “o consumidor recebe uma dose significativa de publicidade, tanto de uma empresa quanto de outra, e avalia de uma maneira tal aquilo vĂȘ que as vantagens de comprar os produtos de uma ou de outra companhia, no fim das contas, tanto faz”.

Zhang e os demais co-autores utilizam a metåfora do cabo de guerra para explicar seu raciocínio. De modo geral, as pessoas partem do princípio de que nesse tipo de disputa haverå apenas um vencedor. Contudo, duas equipes concorrentes em condiçÔes semelhantes de equilíbrio podem terminar a disputa empatadas, por mais que uma tente desequilibrar a outra. O mesmo acontece com a publicidade. Os dois lados podem despejar dinheiro em propaganda, mas sem ganho algum para quem quer que seja.

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Observando a publicidade combativa

Os quatro pesquisadores criaram um modelo matemĂĄtico para demonstrar de que maneira a publicidade combativa cria consumidores indiferentes e deprimem os preços de ambos os lados. O modelo chega a uma conclusĂŁo surpreendente: peças publicitĂĄrias caras, Ă s vezes, ajudam as empresas que se sentem tentadas a recorrer a anĂșncios combativos. “Mostramos que, com custos mais elevados de publicidade por unidade, os nĂ­veis de equilĂ­brio da propaganda sĂŁo menores, resultando em maiores lucros para as empresas concorrentes”, informa o estudo.

Em outras palavras, anĂșncios caros podem desestimular as empresas de anunciar e, portanto, impedi-las de aumentar a indiferença do consumidor. “Nos mercados em que a publicidade cria consumidores indiferentes, talvez fosse interessante para as empresas aumentarem os custos com publicidade, em vez de brigarem”, diz o estudo.

Os pesquisadores testaram seu modelo com estudantes universitĂĄrios. Eles pediram a um grupo de jovens que observasse uma sĂ©rie de anĂșncios combativos veiculados por cinco pares de empresas em categorias que iam de carros alemĂŁes Ă  pasta de dentes. Cada categoria tinha de ter pelo menos duas grandes companhias adeptas da publicidade combativa. No caso dos fabricantes de automĂłveis alemĂŁes, por exemplo, foram utilizados anĂșncios da BMW e da Audi. Para o segmento de pasta dental foram utilizadas propagandas da Aquafresh e da Colgate.

Antes de os alunos assistirem aos comerciais, foi pedido a eles que alocassem Ă s empresas de cada par um total de 100 pontos. Nesse sistema, um estudante cuja indiferença fosse total, alocaria 50 pontos para cada empresa. Depois de assistirem aos anĂșncios, os estudantes tinham de classificar as empresas novamente.

Em quatro categorias — carros, pasta de dentes, serviços de entregas por courier e cartĂ”es de crĂ©dito — os estudantes demonstraram uma indiferença maior depois de assistirem aos comerciais. Em uma categoria apenas — de pilhas — eles demonstraram uma preferĂȘncia maior. (Recado para a Duracell e para a Energizer: vocĂȘs estĂŁo no caminho certo).

O que diferencia as pilhas das demais categorias? Zhang e seus colegas nĂŁo exploraram esse filĂŁo. Os autores quiseram somente mostrar que o setor consegue sensibilizar mais o consumidor com seus anĂșncios. Eles arriscaram alguns possĂ­veis fatores capazes de influenciar o pĂșblico: “caracterĂ­sticas do consumidor, caracterĂ­sticas do produto e eficĂĄcia da mensagem.” Toda empresa deveria avaliar cada um desses elementos antes de lançar uma campanha combativa, diz Zhang. “Em nĂ­vel de gerĂȘncia, isto significa que nĂŁo se deve confiar cegamente na eficĂĄcia da propaganda. Se vocĂȘ notar que os lucros começaram a cair depois que os gastos com publicidade aumentaram, talvez agora entenda por quĂȘ.”

As agĂȘncias de publicidade deveriam aconselhar seus clientes a evitarem a publicidade combativa, ou pelo menos incentivĂĄ-los a fazer uma investigação profunda de sua categoria de produto antes de recorrer a ela.

Nem todo anĂșncio, naturalmente, tem a intenção de agredir a concorrĂȘncia. A propaganda tambĂ©m pode ser informativa ou complementar. Os anĂșncios informativos fazem exatamente o que nome sugere: eles explicam as caracterĂ­sticas e as vantagens de um produto ou serviço. SĂŁo recursos que costumam funcionar melhor em categorias novas de produtos ou em categorias em crescimento, nas quais os consumidores recebem informaçÔes sobre um determinado produto e aprendem a conhecĂȘ-lo. A FedEx distinguiu-se por esse tipo de publicidade nos primeiros anos de funcionamento da empresa, diz Zhang. Ela enfatizou reiteradas vezes a confiabilidade do seu serviço. ConseqĂŒentemente, diz o autor, o consumidor ainda hoje associa a marca Ă  confiabilidade.

Os anĂșncios complementares “fazem com que as pessoas se sintam bem em relação ao produto e dispostas a pagar mais por ele”, observa Zhang. Isto se consegue por meio de uma aura de sedução — basta lembrar o homem do comercial da Marlboro — ou associando-se a oferta a uma estrela, mesmo quando a associação entre o produto e o conhecimento que tem sobre ele a pessoa que aparece no comercial pareça frĂĄgil. Catherine Zeta-Jones, por exemplo, que faz os comerciais da T-Mobile, Ă© uma estrela de primeira grandeza, porĂ©m o que ela sabe sobre aparelhos celulares nĂŁo Ă© muito diferente do que sabe uma outra pessoa qualquer.

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Rainha das cervejas, rainha dos carboidratos

A Apple Computer utilizou anĂșncios complementares para criar uma certa aura em torno do seu tocador iPod, assinala Zhang. “Todos os tocadores de MP3 fazem a mesma coisa, mas nenhum deles tem esse fator de coisa fashion que o iPod tem. Ele Ă© sĂ­mbolo de status: quem tem um Ă© jovem, descolado, tem energia.” A Nike Ă© outra que se sai muito bem nesse nicho. A fabricante de acessĂłrios atlĂ©ticos hĂĄ muito tempo associou sua marca aos maiores astros dos esportes, como o ciclista Lance Armstrong e o jogador de futebol americano Mia Hamm. AlĂ©m disso, a empresa se vale de slogans (um tanto vagos, Ă© verdade) que motivam e inspiram o consumidor, como Just do it (algo como VĂĄ em frente, faça o que tem vontade de fazer), e There is no finish line (NĂŁo hĂĄ linha de chegada).” A Nike tenta fazer o consumidor se sentir mais atlĂ©tico; ela procura fazĂȘ-lo sentir-se co-participante da experiĂȘncia, e atĂ© mesmo do prĂłprio sucesso, de seus herĂłis. Talvez vocĂȘ nĂŁo consiga marcar gols com a mesma perĂ­cia de Hamm, ou pedalar com a mesma velocidade de Armstrong, mas pode pelo menos usar o mesmo calçado que ele. VocĂȘ nunca verĂĄ, porĂ©m, um anĂșncio da Nike gabando-se de que seus tĂȘnis sĂŁo mais flexĂ­veis e dĂŁo maior segurança do que os modelos concorrentes da Adidas.

As principais cervejarias dos EUA, por outro lado, hĂĄ anos se atacam nos comerciais. Em 2005, por exemplo, a Anheuser-Busch, que se refere a Budweiser como “a rainha das cervejas”, batizou a Miller Lite de “rainha dos carboidratos”. AlĂ©m disso, cutucou a concorrente por ser “de propriedade de sul-africanos”, ao passo que a Anheuser-Busch pertence hĂĄ anos a proprietĂĄrios americanos. A Miller foi adquirida em 2002 por um grupo de cervejarias sul-africanas, e a matriz hoje Ă© conhecida como SABMiller. Mas a Miller dĂĄ o troco no mesmo tom. Em um anĂșncio veiculado hĂĄ algum tempo, a empresa retrucava que queria ser a presidente das cervejas, e nĂŁo a rainha — o motivo: “Estamos na AmĂ©rica! NĂŁo nos curvamos diante de glutĂ”es de tiara na cabeça.”

AliĂĄs, foram os presidentes, ou melhor, a campanha pela presidĂȘncia, o que motivou Zhang a analisar mais detidamente os comerciais. Ele começou a investigĂĄ-los seriamente hĂĄ seis anos, quando George Bush e Al Gore preparavam-se para se enfrentar. Ele observou que a publicidade negativa, tĂŁo comum nas campanhas modernas, nĂŁo o impelia necessariamente na direção de um dos candidatos; pelo contrĂĄrio, ele se sentia incomodado com ambos. Isto o levou a imaginar se os textos dos comerciais nĂŁo teriam o mesmo efeito. “A maior parte dos cientistas polĂ­ticos diz que a propaganda nĂŁo tem muita influĂȘncia sobre a opção de voto das pessoas”, diz. “Ela apenas reforça o que as pessoas jĂĄ sabem, suas preferĂȘncias e suas lealdades. Às vezes, porĂ©m, nĂłs nos sentimos um pouco mais indiferentes aos polĂ­ticos depois que assistimos aos seus programas.”

fonte: http://wharton.universia.net

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